sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Domingo da Palavra de Deus: “Vida da Igreja tem de ser marcada pela centralidade da Palavra de Deus”

 

 

Autor do guia de leitura que conduziu o ano da Palavra no Patriarcado de Lisboa, no ano pastoral 2017/18, o padre Ricardo Figueiredo considera que o Domingo da Palavra de Deus, instituído pelo Papa Francisco e que a Igreja celebra neste dia 23 de janeiro, é uma oportunidade para “reconhecer a importância da Palavra de Deus, que tantas vezes fica esquecida”. “Temos de pôr a Palavra de Deus no coração daquilo que são as nossas práticas”, aponta.

Foi através do Motu Proprio ‘Aperuit illis’, de 30 de setembro de 2019, que o Papa Francisco estabeleceu que “o III Domingo do Tempo Comum seja dedicado à celebração, reflexão e divulgação da Palavra de Deus”. Para o padre Ricardo Figueiredo, que escreveu o guia de leitura para o ano da Palavra na diocese, no ano pastoral 2017/18, esta iniciativa do Papa teve coincidência com o que o Patriarcado de Lisboa tinha vivido. “Na altura em que foi criado o Domingo da Palavra de Deus, em 2019, em tom de brincadeira dissemos que o Papa estava atento à Diocese de Lisboa, que tinha tido o ano da Palavra”, observa o sacerdote, ao Jornal VOZ DA VERDADE, acrescentando depois que “o Papa teve esta necessidade de instituir este dia para todo mundo” para se “reconhecer a importância da Palavra de Deus”. “Fazendo o diagnóstico com seriedade, havia um défice da Palavra de Deus naquilo que é a vida da Igreja. Muitas vezes, contamos apenas com os nossos critérios pessoais e não usamos a Palavra de Deus como aquilo que ilumina a nossa vida cristã, a nossa vida comunitária, a vida paroquial, a vida diocesana”, alerta o padre Ricardo.
O Domingo da Palavra de Deus acontece, a cada ano, “quase no início do ano” civil. “O Papa vem reconhecer que toda a nossa vida, enquanto Igreja, tem de ser marcada por esta centralidade da Palavra de Deus. Portanto, foi com grande alegria que recebi isto. Ter um Domingo da Palavra recorda-nos que tudo aquilo que é a nossa ação na Igreja, aquilo que é na nossa pregação, aquilo que é a nossa oração, tem de ser alimentado, fecundado, pela Palavra de Deus”, deseja.

O lugar onde nasce a fé
O Patriarcado de Lisboa dedicou então o ano pastoral 2017/18 ao tema ‘Fazer da Palavra de Deus o lugar onde nasce a fé’, naquele que foi o primeiro ano da receção sinodal, após o Sínodo Diocesano 2016. O padre Ricardo Figueiredo recorda que o tema “tinha sido retirado da Constituição Sinodal de Lisboa” e foi mesmo “dos mais votados”. “As prioridades para os quatro anos de receção sinodal foram pontos da Constituição Sinodal de Lisboa que foram votados e este ponto da Palavra de Deus foi um dos mais votados nas várias instâncias que foram consultadas, penso que de forma quase unânime, como uma grande necessidade que há na nossa diocese – e na Igreja em geral, diria –, de termos a Palavra de Deus como uma realidade central daquilo que é a nossa vida cristã. De facto, é reconhecer a importância da Palavra de Deus, que tantas vezes fica esquecida. Já nem é ler outras coisas, é de facto vivermos numa sociedade e num ambiente tão rápido, com tanta oferta digital, com tanto som, com tanta coisa, que a Palavra de Deus, muitas vezes, pode ser esquecida”, alerta o sacerdote, que nesta próxima semana faz 32 anos. Neste sentido, para o jovem pároco, esse ano pastoral na diocese “sinalizou a Palavra de Deus como algo essencial para a vida cristã”. “O primeiro ponto fundamental é pôr a Palavra de Deus no coração daquilo que são as nossas práticas, daquilo que é nossa oração, daquilo que são os nossos critérios pastorais, daquilo que são as nossas vivências enquanto Igreja. Ser tudo alimentado a partir da Palavra de Deus e não só da nossa criatividade – ou melhor, a nossa criatividade ser fecundada pela Palavra de Deus e pelos critérios da Palavra de Deus”, explica.

 

Leia o artigo completo na edição do dia 23 de janeiro do Jornal VOZ DA VERDADE, disponível aqui e nas paróquias ou em sua casa.

 Patriarcado de Lisboa

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Papa aos empresários: “Mais dignidade no trabalho, mais qualidade e beleza"

 
 Encontro do Papa com os membros da Associação Nacional de Empresas da Construção civil 
 
“Quanto mais cuidamos da dignidade no trabalho, mais certos estamos de que a qualidade e a beleza do trabalho realizado irão aumentar”. São palavras do Papa Francisco no encontro com os membros da Associação Nacional de Empresas da Construção Civil nesta quinta-feira (20), no Vaticano
 

Jane Nogara - Vatican News

Na manhã desta quinta-feira (20/01) o Papa Francisco recebeu os membros da Associação Italiana de Empresas da Construção Civil. Francisco disse aos presentes que gostaria de compartilhar alguns ensinamentos do Evangelho para ajudá-los no seu trabalho. “É uma leitura cristã dos valores aos quais vocês se inspiram: competição e transparência; responsabilidade e sustentabilidade; ética, legalidade e segurança.

Construir pensando nas adversidades

E recordou que o Evangelho que testemunha Jesus na sua pregação, também usou metáforas das construções para transmitir as suas mensagens, e recordando o Evangelho de Lucas disse: “Ele compara os charlatães com os que constroem casas em terreno arenoso sem fundações”, sem pensar nas adversidades. Porém a sua parábola mostra também o outro lado da medalha: ‘Quem vem a mim e ouve as minhas palavras e as põe em prática, [...] é como um homem que, construindo uma casa, escavou muito fundo e lançou uma fundação sobre a rocha’, recordou o Papa afirmando que “a imagem é ainda mais interessante se pensarmos que tal construtor não só fez a coisa certa no momento presente, mas também defendeu a casa de possíveis adversidades".

Para explicar Francisco disse:

“Na pregação de Jesus, o crente é aquele que não se limita a aparecer externamente cristão, mas age de facto como um cristão”

"E é precisamente esta ‘coerência operacional’ - continuou - que lhe permite edificar-se a si mesmo não apenas nos tempos normais da vida, mas também nos momentos difíceis”. Concluindo: “Isto também significa que a fé não nos protege das intempéries, mas, acompanhada de boas obras, fortalece-nos e permite resistir a ela".

Concorrência e transparência

De seguida discorreu sobre a concorrência e a transparência no trabalho dos empresários: “A competição - disse o Papa - deve ser um incentivo para fazer melhor e bem, e não um desejo de dominação e exclusão”. “Isto permite evitar a concorrência desleal, o que nas esferas económica e de trabalho, muitas vezes significa perda de empregos, apoio ao trabalho informal ou mal remunerado. Isto favorece formas de corrupção que se alimentam do assassinato da ilegalidade e da injustiça. Concorrência e transparência: juntas".

Responsabilidade e sustentabilidade

Ao falar sobre responsabilidade e sustentabilidade o Papa disse que “a sustentabilidade tem a ver com a beleza dos lugares e a qualidade dos relacionamentos”. E recordou uma passagem da Laudato si’ na qual escreveu:

“Não basta procurar a beleza no projeto, pois é ainda mais valioso servir outro tipo de beleza: a qualidade de vida das pessoas, a sua harmonia com o meio ambiente, o seu encontro e ajuda umas às outras”

Desejando que o trabalho dos presentes possa ajudar “as comunidades a fortalecer os laços de solidariedade, cooperação e ajuda recíproca”.

Ética, legalidade e segurança

Referindo-se a Ética, legalidade e segurança, o Papa advertiu que os acidentes de trabalho são muitos, demais e para não esquecerem que os dados “não são números, mas são pessoas”.  “Infelizmente - continuou - se a segurança no local de trabalho é vista como um custo, parte-se da suposição errada. A verdadeira riqueza são as pessoas: sem elas não há comunidade de trabalho, não há empresa, não há economia”.

“Segurança no local de trabalho significa salvaguardar os recursos humanos, o que tem um inestimável valor aos olhos de Deus e também aos olhos do verdadeiro empreendedor”

“Por esta razão – concluiu o Papa - a legalidade deve ser vista como a proteção do património mais elevado, que são as pessoas. Trabalhar com segurança permite que todos possam expressar o melhor de si mesmos enquanto ganham o seu pão de cada dia. Quanto mais cuidamos da dignidade no trabalho, mais certos estamos de que a qualidade e a beleza do trabalho realizado irão aumentar”.

Vatican News

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Papa: a revolução da ternura, modo inesperado de fazer justiça

 
 
A ternura paterna foi o tema da catequese do Papa na Audiência Geral desta quarta-feira (19/01), na Sala Paulo VI. Mais uma vez, Francisco falou da "revolução da ternura" e mencionou de modo especial a condição dos encarcerados. "É justo que quem errou pague, mas é ainda mais justo que possa redimir-se."

Bianca Fraccalvieri – Vatican News

S. José, pai na ternura: este foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta-feira, 19 de janeiro.

O Pontífice recordou que não há nos Evangelhos relatos explícitos de como S. José exerceu a sua paternidade. Todavia, é possível compreender algo a partir do próprio Jesus, que usou sempre a palavra “pai” para falar de Deus e do seu amor.

Entre as muitas parábolas que tem a figura paterna como protagonista, Francisco citou a do Pai misericordioso e o acolhimento ao filho pródigo, narrada por Lucas.

O filho estava à espera de uma punição, contentando-se em ser tratado como um dos criados; e, ao contrário, vê-se abraçado pelo pai. “A ternura é algo maior do que a lógica do mundo”, comentou o Papa. “É um modo inesperado de fazer justiça.”

Deus não se assusta com os nossos pecados

Por isso, acrescentou o Pontífice, jamais devemos esquecer que Deus não se assusta com os nossos pecados:

“Vamos colocar isto na nossa cabeça: Deus não se assusta com os nossos pecados, é maior do que os nossos pecados. É pai, é amor, é terno. Não se assusta com os nossos pecados, os nossos erros, as nossas quedas, mas assusta-se com o fechar do nosso coração - isto sim O Fá-Lo sofrer - com a nossa falta de fé no seu amor.”

Francisco contou a encenação de uma peça teatral feita por jovens sobre a parábola do filho pródigo. O jovem pediu um lenço branco na janela como sinal de que o pai o tinha perdoado. Mas quando regressou, encontrou a casa repleta de lenços. "Assim é a misericórdia de Deus. (...) Todos nós temos contas para resolver, mas fazer as contas com Deus é algo belíssimo, porque nós começamos a falar e Ele abraça-nos. A ternura."

Há uma grande ternura na experiência do amor de Deus, disse ainda Francisco, convidando os fiéis a lembrarem-se de quando experimentaram esta ternura e se, pela nossa vez, tornamo-nos suas testemunhas. A ternura não é uma questão emotiva ou sentimental: é a experiência de sentirmo-nos amados.  Por isso é importante encontrar a Misericórdia de Deus, especialmente no Sacramento da Reconciliação. "Deus perdoa-nos sempre, somos nós que nos cansamos de pedir perdão."

Revolução da ternura para não confundir redenção com punição

O Papa concluiu afirmando que nos fará bem espelharmo-nos na paternidade de José e questionarmo-nos se permitimos ao Senhor amar-nos com a ternura.

“Sem esta ‘revolução da ternura’, corremos o risco de permanecermos prisioneiros numa justiça que não nos permite erguer facilmente e que confunde a redenção com a punição”, disse ainda Francisco, dirigindo o seu último pensando aos encarcerados:

“É justo que quem errou pague pelo próprio erro, mas é ainda mais justo que quem errou, possa redimir-se do próprio erro. Não podem existir condenações sem 'janelas' de esperança. (...) Rezemos pelos encarcerados, para que nessas 'janelas' de esperança encontrem uma saída rumo a uma vida melhor.”

E como tem feito neste ciclo dedicado a S. José, o Pontífice concluiu a catequese com uma oração:

"São José, pai na ternura,
ensinai-nos a aceitar que somos amados precisamente naquilo que é mais débil em nós.
Concedei que não coloquemos qualquer obstáculo
entre a nossa pobreza e a grandeza do amor de Deus.
Suscitai em nós o desejo de nos aproximarmos do Sacramento da Reconciliação,
para que possamos ser perdoados e também que nos tornemos capazes de amar com ternura os nossos irmãos e irmãs na sua pobreza.
Estai próximo daqueles que erraram e que pagam o preço por isso;
ajudai-os a encontrar, juntamente com a justiça, a ternura para recomeçar.
E ensinai-lhes que a primeira maneira de recomeçar
é pedir sinceramente perdão, para sentir a carícia do Pai."

VN

domingo, 16 de janeiro de 2022

O Papa no Angelus: se recorremos a Jesus, Ele está pronto para nos reerguer

 
 
"O primeiro sinal que Jesus realiza não é uma cura extraordinária ou um prodígio no templo de Jerusalém, mas um gesto que atende a uma necessidade simples e concreta das pessoas comuns. É assim que Deus gosta de agir”: disse o Papa Francisco na oração mariana do Angelus, neste II Domingo do Tempo Comum
 

Raimundo de Lima – Vatican News

Na alocução que precedeu a oração do Angelus ao meio dia deste domingo (16/01), o Papa Francisco ateve-se ao Evangelho deste II Domingo do Tempo Comum, que traz o célebre episódio das Bodas de Canaã, em que Jesus realiza o seu primeiro milagre, transformando a água em vinho para a alegria dos esposos.

Francisco evidenciou que o relato conclui-se assim: "Este foi o princípio dos sinais que Jesus realizou; ele manifestou a sua glória e os seus discípulos creram nele" (Jo 2,11). "Observamos – disse o Papa - que o evangelista João não fala de um milagre, ou seja, de um evento poderoso e extraordinário que gera maravilhas. Ele escreve que em Canaã ocorre um sinal, que desperta a fé dos discípulos."

Sinal, indício que revela o amor de Deus

Podemos então interrogarmo-nos: o que é um "sinal" de acordo com o Evangelho? "É um indício que revela o amor de Deus, ou seja, não chama a atenção para o poder do gesto, mas para o amor que o provocou. Ele ensina-nos algo do amor de Deus, que é sempre próximo, terno e compassivo. O primeiro sinal ocorre enquanto dois recém-casados estão em dificuldade no dia mais importante das suas vidas. No meio da festa, falta um elemento essencial, o vinho, e a alegria correndo o risco de acabar em críticas e à insatisfação dos convidados."

O Santo Padre prosseguiu ressaltando que Nossa Senhora apercebe-se do problema e discretamente aponta-o a Jesus. E Ele intervém sem clamor, quase sem dar a perceber. Tudo se passa de forma reservada, "nos bastidores": Jesus diz aos serventes para encher as talhas de água, que se transforma em vinho.

Proximidade e discrição de Deus em sua ação

É assim que Deus age, com proximidade e discrição. Os discípulos de Jesus veem isto: eles veem que graças a Ele a festa de casamento tornou-se ainda mais bela. E eles também veem a maneira de agir de Jesus, o seu serviço escondido, de tal forma que os elogios pelo bom vinho vão então para o noivo. Assim, a semente da fé começa a esenvolver-se neles, ou seja, eles creem que em Jesus, Deus está presente, o amor de Deus.

Prosseguindo na sua alocução, Francisco disse que "é bonito pensar que o primeiro sinal que Jesus realiza não é uma cura extraordinária ou um prodígio no templo de Jerusalém, mas um gesto que atende a uma necessidade simples e concreta das pessoas comuns". É assim que Deus gosta de agir, frisou o Santo Padre.

E se nós, como Maria em Canã, o interpelamos, Ele está pronto para nos ajudar, para nos reerguer. E assim, se estamos atentos a estes "sinais", somos conquistados pelo seu amor e tornamo-nos seus discípulos.

Deus quer o melhor para nós

O Pontífice apontou que há outra característica distintiva do sinal de Canaã. "Normalmente o vinho dado no final da festa era o menos bom, o vinho aguado. Jesus, ao contrário, faz de modo a que a festa termine com o melhor vinho."

Dito isto, explicou: "Simbolicamente, isto diz-nos que Deus quer o melhor para nós, Ele quer que sejamos felizes. Ele não estabelece limites e não nos pede recompensa. No sinal de Jesus não há espaço para segundos fins, para exigências ao casal. Não, a alegria que Jesus deixa no coração é plena e sem pretensões. Nunca é aguada!"

Maria nos ajude a valorizar os sinais de Deus na nossa vida

Por fim, Francisco sugeriu um exercício aos fiéis e peregrinos reunidos na Praça de S. Pedro para a oração mariana conduzida pelo Santo Padre, um exercício que – segundo ele – pode-nos fazer muito bem.

Tentemos, hoje, procurar nas nossas memórias os sinais que o Senhor realizou na nossa vida, para nos mostrar que Ele nos ama; aquele momento difícil em que Deus me fez experimentar o seu amor... E perguntemo-nos: com que sinais, discretos e solícitos, Ele me fez sentir a  sua ternura? Como descobri eu a sua proximidade e me deixou uma grande alegria no coração?

E concluiu exortando a revivermos os momentos em que experimentamos a  sua presença e a intercessão de Maria. "Que ela, a Mãe, que como em Canaã está sempre atenta, nos ajude a valorizar os sinais de Deus na nossa vida."

Vatican News

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Francisco na Audiência Geral: o trabalho é uma unção de dignidade

 
 O Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta-feira  (Vatican Media) 
 
Segundo o Papa, o que dá dignidade a uma pessoa "não é levar o pão para casa", mas "ganhar o pão. Se não damos ao nosso povo, aos nossos homens e mulheres a capacidade de ganhar o pão isso é uma injustiça social naquele local, naquela nação, naquele continente. Os governantes devem dar a todos a possibilidade de ganhar o pão, pois ganhar o pão dá dignidade".
 

Mariangela Jaguraba - Vatican News

O Papa Francisco deu continuidade ao ciclo de catequeses sobre S. José na Audiência Geral desta quarta-feira (12/01).

Os evangelistas Mateus e Marcos definem José como “carpinteiro” ou “marceneiro”. Os Padres latinos da Igreja traduziram-no como “carpinteiro”. “Carpinteiro” ou “marceneiro” era uma qualificação genérica, que indicava "tanto os artesãos da madeira como os trabalhadores que se ocupavam de atividades relacionadas com a construção. Um trabalho bastante duro, tendo que trabalhar com materiais pesados como a madeira, a pedra e o ferro. Sob o ponto de vista económico, não garantia grandes ganhos, como se pode deduzir do facto de Maria e José, quando apresentaram Jesus no Templo, oferecerem apenas um casal de rolas ou de pombas, como a Lei prescrevia para os pobres".

Jesus adolescente "aprendeu esta profissão com o pai". Quando se tornou adulto, começou a pregar, e as pessoas interrogavam-se «De onde vem esta sabedoria e estes prodígios?» e escandalizavam-se com ele, "porque era filho de um carpinteiro, mas falava como um doutor da lei". A seguir, o Papa acrescentou:

Este dado biográfico sobre José e Jesus faz-me pensar em todos os trabalhadores do mundo, especialmente naqueles que trabalham arduamente em minas e em certas fábricas; pensemos neles, naqueles que são explorados através do trabalho não declarado; que recebem salário de contrabando, escondido, sem aposentação, sem nada, sem segurança, trabalho não declarado que hoje é muito, pensemos nas vítimas do trabalho; que ultimamente foram muitas em Itália, nas crianças que são obrigadas a trabalhar; é terrível que uma criança na idade de brincar seja obrigada a trabalhar como um adulto, pensemos naqueles que vasculham os lixos á  de algo útil para baratear. Todas essas pessoas são nossos irmãos e irmãs que ganham a vida assim. Não lhes dão dignidade! Pensemos nisso. Isso acontece hoje no mundo.

O Papa recordou também aqueles que "estão desempregados"; que "vão bater às portas das fabricas, das empresas. Mas, falta trabalho". Pessoas que se sentem feridas "na sua dignidade porque não conseguem encontrar um emprego" e ao voltarem para casa, sem encontrar trabalho, passam na Caritas para obterem um pouco de pão.

O que lhe dá dignidade não é levar o pão para casa. Podes pegar no pão da Caritas, isto não te da dignidade, mas o que da dá, é ganhar o pão. Se não damos ao nosso povo, aos nossos homens e mulheres a capacidade de ganhar o pão, isto é uma injustiça social naquele local, naquela nação, naquele continente. Os governantes devem dar a todos a possibilidade de ganhar o pão, pois ganhar o pão dá dignidade. O trabalho é uma unção de dignidade. Isto é importante.

A seguir, Francisco ressaltou que "muitos jovens, muitos pais e mães vivem o drama de não terem um emprego que lhes permita viver serenamente. Vivem o dia".

Muitas vezes a procura de um trabalho torna-se tão dramática que são levados ao ponto de perderem toda a esperança e desejo de vida. Nestes tempos de pandemia, muitas pessoas perderam os empregos e algumas, esmagadas por um fardo insuportável, chegaram ao ponto de cometer suicídio. Gostaria hoje de lembrar cada uma delas e as suas famílias.

A seguir, o Papa pediu aos fiéis para fazerem um minuto de silêncio a fim de recordar as pessoas desesperadas porque não encontrarem trabalho.

Segundo o Pontífice, "não se leva suficientemente em conta o facto de o trabalho ser uma componente essencial da vida humana, e também do caminho da santificação. O trabalho não é apenas um meio de ganhar a vida: é também um lugar onde nos expressamos, sentimos-nos úteis e aprendemos a grande lição da realidade, o que ajuda a vida espiritual a não se tornar espiritualismo. Infelizmente, porém, o trabalho com frequência é refém da injustiça social e, em vez de ser um meio de humanização, torna-se uma periferia existencial. Muitas vezes interrogo-me: com que espírito fazemos o nosso trabalho diário? Como lidamos com a fadiga? Vemos a nossa atividade ligada apenas ao nosso destino ou também ao destino dos outros? Com efeito, o trabalho é um modo de expressar a nossa personalidade, que é relacional por natureza. E o trabalho também é uma forma de expressar a nossa criatividade: cada um trabalha à sua maneira, com o seu próprio estilo; o mesmo trabalho, mas com um estilo diferente".

"É bom pensar que o próprio Jesus trabalhou e aprendeu esta arte com S. José. Hoje devemos interrogar-nos sobre, o que podemos fazer para recuperar o valor do trabalho; e que contribuição podemos, como Igreja, oferecer para que ele possa ser resgatado da lógica do mero lucro e possa ser vivido como direito e dever fundamental da pessoa, que exprime e incrementa a sua dignidade", concluiu o Papa.

Vatican News

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

ACOMPANHAR MARIA NO NOVO TESTAMENTO

   

   
 

Por motivo imprevisto não será realizada a reunião do dia 13.01.22.

Assim, a concretização da mesma passará para o dia 20.01.22

Para entrar na reunião Zoom:

https://zoom.us/j/6429275371?pwd=aW01STBSMjNLaXNmN21HRW1zNXNudz09

ID da reunião: 642 927 5371
Senha de acesso: 1234

 

Abusos - Comissão Independente abre canais para chegar a «todas as vítimas»

 


Organismo vai abordar período de 1950 a 2022, para encontrar testemunhos e números de casos na Igreja Católica em Portugal.

A Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica em Portugal promoveu hoje a apresentação pública da equipa e plano de trabalho, divulgando contactos para recolher denúncias e testemunhas de vítimas. “Foi vítima de abusos sexuais durante a sua infância e adolescência (até aos 18 anos), praticados por membros da Igreja católica portuguesa ou pessoas que para ela trabalham? Dê o seu testemunho. Faça-o com total garantia do nosso sigilo profissional e do seu anonimato”, refere o organismo, na sua nova página online, https://darvozaosilencio.org/. Pedro Strecht, coordenador do organismo, disse aos jornalistas que a comissão existe “para estar ao lado das pessoas, tem disponibilidade total para as escutar, a seu tempo e com tempo”. “Todas contam”, assinalou.

Os testemunhos são recolhidos num inquérito online, numa linha aberta (+351 917 110 000) ou por email (geral@darvozaosilencio.org), sendo possível agendar um encontro presencial com membros da comissão, mediante marcação prévia por contacto telefónico.

A comissão apela a todos os órgãos de comunicação social, bem como a todas as entidades públicas e privadas incluindo a Igreja, que “adiram à missão de ‘Dar Voz ao Silêncio’ a vítimas de abuso sexual na Igreja Católica Portuguesa”. 
Pedro Strecht assinalou que o organismo recebeu, por parte da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), total “autonomia” e confiança para “organizar e levar a bom termo” o seu trabalho, que vai decorrer até final de 2022.

O coordenador disse ter encontrado, por parte dos responsáveis católicos, uma posição “clara e invequívoca” sobre a necessidade de investigação. O psiquiatra apontou como objetivo “esclarecer o melhor possível tudo quanto possa ter acontecido em Portugal”, no que diz respeito a esta realidade “tão necessária de apurar”, precisando “onde, como, quando e por quem” foram abusadas as vítimas. Para Pedro Strecht, está em causa a “reparação da dignidade” de cada vítima, para que o seu testemunho seja acolhido e valorizado.

 

 

A conferência de imprensa contou com intervenções dos outros membros da comissão, a começar por Ana Nunes de Almeida, socióloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e presidente do respetivo Conselho Científico. A responsável precisou que o objetivo da comissão é identificar abusos praticados por membros da Igreja Católica ou nas suas instituições, a fim de “ter uma noção dos números” de casos que aconteceram entre 1950 e 2022, e analisar as suas características, procurando tipificar as várias situações. O organismo vai proceder a uma análise da documentação em várias bases de dados e arquivos (APAV, IAC, Procuradoria-Geral da República), além da imprensa e arquivos históricos das dioceses. Ana Nunes de Almeida sublinhou que o trabalho prioritário passa pelos “métodos de inquirição” para dar a palavra às vítimas desses abusos. “Todas as vítimas, de todas as idades, todos os testemunhos para nós contam”, sustentou.

Álvaro Laborinho Lúcio, juiz conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça e antigo Ministro da Justiça, precisou os conceitos de “abusos sexuais” – “práticas sexuais que no Direito Penal português são suscetíveis de integrar crimes de natureza sexual” – e de “crianças” (0-18 anos), com os direitos próprios destas pessoas. O especialista precisou que não vai estar em causa uma “investigação criminal”, mas um estudo, estendendo o atual critério da lei penal a todo o período de 1950 a 2022. Face às prescrições, acrescentou, há que distinguir “denúncias” e “testemunhos”, pelo que se estabeleceu uma “relação direta” com a Procuradoria-Geral da República, para encaminhar possíveis práticas criminosas, com elementos de ligação com a comissão. “Trabalhamos com total autonomia em relação à Igreja Católica”, insistiu.

Daniel Sampaio, psiquiatra e professor catedrático jubilado da Faculdade de Medicina de Lisboa, destacou a importância da comunicação, neste processo, para “captar aquilo que se passou no silêncio, durante tantos anos”, apelando à colaboração dos media. O membro da comissão alertou para o “profundo sofrimento” das vítimas, com consequências que se estendem ao longo de toda a vida. “O mais importante desta comunicação é ouvir o que não foi dito”, apontou, realçando que “é preciso dar tempo às pessoas”.

A comissão integra ainda Filipa Tavares, assistente social e terapeuta familiar, que trabalhou cerca de 25 anos numa IPSS, ‘Casa da Praia/Centro Dr. João dos Santos’ com famílias disfuncionais e de risco. “A voz de cada pessoa, de cada vítima, é única e conta”, assinalou.
Catarina Vasconcelos, cineasta, licenciada na Faculdade de Belas Artes com pós-graduação em Antropologia Visual no ISCTE e mestrado no Royal College of Art, Londres, apresentou-se como “membro da sociedade civil”. “Trago questões, dúvidas, espanto e revolta perante estes casos”, declarou.

A equipa conta já com mais dois colaboradores, das áreas da psicologia clínica e comunicação social, e vão ser constituídas equipas para cada tarefa.

Ecclesia