quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O Papa: não devemos ter vergonha de pedir, de rezar

 Papa Francisco durante a Audiência Geral desta quarta feira 
 
“A oração cristã é plenamente humana:inclui o louvor e a súplica", disse Francisco na catequese da Audiência Geral, recordando "que não nos devemos escandalizar se sentirmos a necessidade de rezar". Não ter vergonha de pedir, sobretudo quando estamos a passar por dificuldades.

Mariangela Jaguraba - Vatican News

“A oração de súplica” foi o tema da catequese do Papa Francisco na Audiência Geral desta quarta-feira (09/12), realizada na Biblioteca do Palácio Apostólico.

“A oração cristã é plenamente humana: inclui o louvor e a súplica. De facto, quando Jesus ensinou os seus discípulos a rezar, fê-lo com o “Pai-Nosso”.” Com esta oração, “imploramos a Deus pelos dons mais elevados: a santificação do seu nome entre os homens, o advento do seu senhorio, a realização da sua vontade de bem em relação ao mundo. Mas no “Pai-Nosso” também pedimos os dons mais simples e diários, como o “pão de cada dia”, que também significa saúde, casa, trabalho, a Eucaristia, necessária para a vida em Cristo, assim como o perdão dos pecados e, portanto, a paz nas nossas relações; e, por fim, que nos ajude nas tentações e nos liberte do mal”.

O ser humano é uma invocação

“Pedir, suplicar: isto é muito humano!”, disse o Papa, acrescentando:

Às vezes acreditamos que não precisamos de nada, que nos bastamos e que vivemos na completa autossuficiência. Muitas vezes isto acontece! Mas cedo ou tarde esta ilusão se desvanece. O ser humano é uma invocação, que às vezes torna-se um grito, muitas vezes retido. A alma assemelha-se a uma terra árida e sedenta. Todos nós experimentamos, num momento o outro de nossa existência, o tempo da melancolia, da solidão.

Segundo o Papa, “a Bíblia não se envergonha de mostrar a condição humana marcada pela doença, injustiça, traição de amigos ou ameaça de inimigos. Às vezes parece que tudo desmorona, que a vida vivida até agora tenha sido em vão. Nestas situações aparentemente sem solução, existe uma única saída: o grito, a oração: “Ajuda-me, Senhor!” A oração abre fendas de luz nas trevas mais escuras, abre o caminho”.

“Nós, seres humanos, partilhamos esta invocação de ajuda com toda a criação. Não somos os únicos a “rezar” neste universo vasto: cada fragmento da criação carrega inscrito o desejo de Deus. São Paulo o expressou desta forma: «Sabemos que toda a criação sofre as dores do parto até hoje. Não somente ela, mas também nós, que possuímos as primícias do Espírito, gememos interiormente»”, disse ainda Francisco.

Não ter vergonha de rezar

Segundo o Papa, “em nós ressoa o gemido multiforme das criaturas: das árvores, das rochas, dos animais. Tudo anseia por cumprimento. Nós somos os únicos a rezar com consciência. Sabemos que nos dirigimos ao Pai, entramos em diálogo com o Pai”.

Assim, não nos devemos escandalizar se sentirmos a necessidade de rezar, não ter vergonha, sobretudo quando estamos a passat por dificuldades, pedir. Jesus ao falar sobre um homem desonesto que deve fazer as contas com o seu patrão, diz: pedir, envergonha-me. E muitos de nós temos este sentimento. Temos vergonha de pedir, de pedir ajuda, pedir alguma coisa a alguém para me ajudar a alcançar um objetivo, e temos vergonha de pedir a Deus. Isto não pode ser feito. Não ter vergonha de rezar. Senhor, preciso disto. Senhor, estou com esta dificuldade. Ajuda-me! O grito, o grito do coração a Deus que é Pai. Devemos fazê-lo também nos momentos felizes; não somente nos momentos maus, mas felizes. Agradecer a Deus por tudo o que nos é dado, e não tomar nada por garantido ou devido: tudo é graça. Devemos aprender isto. O Senhor doa-nos sempre. Tudo é graça de Deus.

De acordo com Francisco, “não devemos sufocar a súplica que surge espontaneamente em nós. A oração de súplica caminha de mãos dadas com a aceitação do nosso limite e da nossa criaturalidade. Pode-se até não chegar a crer em Deus, mas é difícil não crer na oração: ela simplesmente existe; apresenta-se a nós como um grito; e todos temos que lidar com esta voz interior que pode talvez ficar em silêncio por muito tempo, mas um dia acorda e grita”.

A oração é espera

“Deus responderá. Não há orante no Livro dos Salmos que levante o seu lamento e permaneça sem ser ouvido. Deus responde sempre, hoje, amanhã. Responde sempre. De uma maneira ou de outra. Responde sempre. A Bíblia o repete várias vezes: Deus escuta o clamor de quem o invoca. Até mesmo os nossos pedidos gaguejados, mesmo aqueles que permanecem no fundo do coração. O Pai quer dar-nos o seu Espírito, que anima cada oração e transforma todas as coisas. É uma questão de paciência, de aguentar a espera”, frisou o Papa, acrescentando:

Agora estamos no tempo de Advento, um tempo de espera do Natal. Isto vê-se bem. Mas também toda a nossa vida é uma espera. E a oração é sempre espera, porque sabemos que o Senhor responderá. Até mesmo a morte recua, quando um cristão reza, porque sabe que cada orante tem um aliado mais forte do que ela: o Senhor Ressuscitado. A morte já foi derrotada em Cristo, e virá o dia em que tudo será definitivo, e ela não poderá mais fazer escárnio da nossa vida e da nossa felicidade. Aprendamos a estar na expectativa, na espera do Senhor. O Senhor vem visitar-nos, não somente nas grandes festas de Natal, Páscoa, mas visita-nos todos os dias na intimidade dos nossos corações, se estamos à sua espera.

“Muitas vezes não percebemos que o Senhor está próximo, que bate à nossa porta e deixamo-Lo passar. “Tenho medo de Deus quando passa”, dizia Santo Agostinho. “Tenho medo que Ele passe e eu não perceba”.  O Senhor passa. O Senhor vem, o Senhor bate, mas se estás com o ouvido cheio de outros barulhos, não irás ouvir o chamamento do Senhor. Estar à espera. Esta é a oração”, concluiu o Papa.

Vatican News

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Homilia na Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, Padroeira de Portugal


“Consagrada pela unidade da Trindade, de cujo louvor Ela está cheia” (Potâmio de Lisboa, séc. IV)

 
A 25 deste mês celebraremos o Natal de Jesus. Poucos dias no calendário, mais ou menos demorados no coração de cada um... Não me refiro à festa exterior, condicionada em tempos de pandemia. Refiro-me ao nosso coração, até coincidirmos com o coração de Deus. É esse o lugar que não dispensa, para aparecer neste mundo. 
Mais uma vez nos admirará a circunstância: num lugar remoto, num simples presépio. Um Menino envolto em panos, quase a anunciar os da sepultura. Uma luz na noite, prenúncio da Páscoa, anos depois. Tudo tão simples, como o acontecer de Deus.
Esse foi o Natal. Esperado há muito tempo, profetizado até, mas surpreendente. Pleno de traços de iniciativa divina, pois a nossa maneira nunca o faria assim. 
Só Deus o preparou. E fê-lo, anos antes e de modo ainda mais oculto, na Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, hoje celebrada. Como se nela criasse uma nova terra, para a humanidade novíssima que em Jesus começou. Mais, bem mais do que o barro inicial em que fomos moldados, Maria foi assim criada e assim se manteve, absolutamente intacta e disponível para o Natal de Deus neste mundo.
Lembremos o dogma, como Pio IX o definiu: «Por uma graça e favor singular de Deus omnipotente e em previsão dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do género humano, a bem-aventurada Virgem Maria foi preservada intacta de toda a mancha do pecado original no primeiro instante da sua conceição» (Bula Ineffabilis Deus). 
Comenta o Catecismo da Igreja Católica, na esteira do Concílio: «Para vir a ser Mãe do Salvador, Maria “foi adornada por Deus com dons dignos de uma tão grande missão” (Lumen Gentium, 56). O anjo Gabriel, no momento da Anunciação, saúda-a como “cheia de graça”. Efetivamente, para dar o assentimento livre da sua fé ao anúncio da sua vocação, era necessário que ela fosse totalmente movida pela graça de Deus.» (CIC, 490). Prosseguindo mais à frente: «… dando o seu consentimento à palavra de Deus, Maria tornou-se Mãe de Jesus. E aceitando de todo o coração, sem que nenhum pecado a retivesse, a vontade divina da salvação, entregou-se totalmente à pessoa e à obra do seu Filho, para servir, na dependência d’Ele e com Ele, pela graça de Deus, o mistério da redenção» (CIC, 494).
Creio oportuno lembrar estes passos, para sabermos do que falamos e corretamente o celebrarmos. São verdades de fé, a que não chegaríamos só por nós. Têm nisso mesmo a garantia divina de serem absolutamente verazes, aprofundando o sentido das coisas e alargando o horizonte das vidas.

Celebramos a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, Padroeira de Portugal. Celebramo-la sobretudo se lhe acolhermos o significado. E o que significa para nós e nas atuais circunstâncias, com todos os que sofrem, mais perto ou mais longe, por razões de saúde ou falta de meios de subsistência, por agressões físicas ou morais de vária ordem e conflitos que não se preveniram ou tardam em resolver-se. Isto entre pessoas e grupos, ou entre países e etnias. Num mundo em que aumentam os atentados contra a liberdade religiosa e o culto que ela inclui. Num mundo em que falta proteger integralmente a vida humana, sem nunca interromper o seu percurso natural... 
É também um mundo onde muito bem acontece, em termos de solidariedade humana e verdadeiro progresso, como o que encontramos no campo da investigação científica, para debelar a presente pandemia. Ou quando, apesar de extremismos vários, podemos verificar atitudes concretas de cooperação internacional, neste e noutros campos.
Porém, são muitos os conflitos abertos ou latentes, de tal gravidade e persistência que requerem vontades firmes para os resolver na raiz. E a raiz, como é mais que tempo de aceitarmos, está no íntimo de cada um, nesse ponto a que também chamamos “coração”. Um coração que acompanhe o “Imaculado Coração de Maria”, como foi lembrado aos Pastorinhos de Fátima.

O mínimo que podemos dizer é que ninguém foi criado para tão pouco e por vezes tão mau como frequentemente lhe toca. No coração humano persistem aspirações a algo de mais e melhor. Aspiração a uma humanidade nova e mais harmonizada com a criação inteira, a caminho dum destino eterno de que afinal ninguém desiste no mais íntimo de si mesmo.
Pois bem, a solenidade de hoje confirma-nos a certeza de que assim pode ser. Mais ainda, de que tal aconteceu já e definitivamente em Cristo, incarnado em Maria, para tal preparada desde a sua Imaculada Conceição. Diz-nos principalmente como tudo aconteceu a partir de Deus. E exorta-nos a acreditar no Seu poder, como Maria acreditou – Ela, a jovem que era então, na pequena terra da Nazaré da Galileia, ponto minúsculo daquele imenso Império que se espraiava já por três continentes. Guardemos o contraste, para nos convencermos do procedimento divino. Guardemo-lo também, para lhe correspondermos como Maria o fez, vencidos e convencidos pela discreta omnipotência de Deus. Oiçamos também como Ela ouviu: «Não temas… A Deus nada é impossível».
Não era um tempo fácil, aquele. Não é um tempo fácil agora. À luz da solenidade de hoje, demos pleno espaço a Deus e à sua vontade de recriar tudo em Cristo. Livremo-nos da desobediência que nos destrói, desde aquele primeiro “não” que a leitura do Genesis recordou. Digamos inteiramente “sim”, como Maria o disse ao mensageiro celeste: «Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra». Para esse sim foi predisposta desde a sua conceição. Para este sim nos impele o mesmo Espírito, que no batismo recebemos. E assim, só assim, o Evangelho continuará a acontecer.
Disso mesmo estava bem consciente um cristão dos primeiros séculos, ao escrever: «Tendo, pois, tudo já planeado em si mesmo juntamente com o seu Filho, [Deus] permitiu que, até aos últimos tempos, conforme ao nosso desejo, nos movêssemos por impulsos desordenados, arrastados pelos prazeres ilícitos e paixões, não porque se regozijasse de algum modo com os nossos erros, mas tolerava-os; nem porque concordasse com o tempo passado favorável à iniquidade, mas preparava o tempo atual da justiça, para que, durante esse tempo, reconhecendo-nos indignos da vida, em virtude das obras de cada um, agora pela benignidade de Deus, fossemos considerados dignos; e, reconhecendo a impossibilidade de, por nós próprios, entrar no reino de Deus, nos tornássemos capazes pelo poder de Deus» (Carta a Diogneto, IX, 1).

 


O desígnio de Deus a nosso respeito é possibilitar-nos, pela graça batismal, o que aconteceu em Maria, cheia de graça desde a sua Imaculada Conceição. Ouvimo-lo há pouco na epístola: «Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que […] n’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença». E o Catecismo esclarece, resumindo vários passos neotestamentários: «O Batismo não somente purifica de todos os pecados, como faz do neófito “uma nova criatura”, um filho adotivo de Deus, tornado “participante da natureza divina”, membro de Cristo e coerdeiros com Ele, templo do Espírito Santo» (CIC, 1265).
Resumamos, se possível. O drama da humanidade, desde que ganhou consciência de si, foi – e continua a ser – a autossuficiência que pretende no que à vida respeita, própria e alheia. Assim pecou originalmente e assim persiste infelizmente. Salva-nos o facto de Deus não desistir de nos refazer em Cristo, com o “sim” de Maria. Para tal foi preparada e a tal correspondeu. Entre o sim de Deus, que a criou imaculada em função de Cristo, e o sim de Maria, que permitiu a sua vinda ao mundo em função de nós, há um nexo absoluto e salvador. Esse mesmo que se repercute nos cristãos, quando o batismo e a vida coincidem.
Há de ser esse o fruto da celebração que fazemos. Seja-nos símbolo e apelo a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, para uma vida em Deus e para Deus. Com geral benefício, pois “uma alma que se eleva, eleva o mundo”. Contemplemos Maria e saberemos o que havemos de ser. Saberemos como, também através de nós, o Natal de Cristo será a vida de muitos.  

Aclamemo-la aqui, traduzindo as palavras que lhe dedicou há tantos séculos o primeiro bispo conhecido de Lisboa: «Só a Virgem Mãe de Deus […] deve levantar a sua cabeça coroada com seus louros até às nuvens do céu. Que ela seja bendita entre os povos, consagrada mui merecidamente pela unidade da Trindade, de cujo louvor Ela está cheia desde agora e para sempre nos eternos séculos dos séculos» (Potâmio de Lisboa, Epístola ao Bispo Atanásio, 10).

Sé de Lisboa, 8 de dezembro de 2020


+ Manuel, Cardeal-Patriarca

 Patriarcado de Lisboa

Papa convoca Ano dedicado a São José


 Ano de S. José começa neste 8 de dezembro de 2020 e encerra em 8 de dezembro de 2021 
 
 
Para celebrar os 150 anos da declaração do Esposo de Maria como Padroeiro da Igreja Católica, o Papa Francisco convoca o "Ano de São José" com a Carta apostólica “Patris corde – Com coração de Pai”.

Vatican News

Pai amado, pai na ternura, na obediência e no acolhimento; pai com coragem criativa, trabalhador, sempre na sombra: com estas palavras, o Papa Francisco descreve São José. E o faz na Carta apostólica “Patris corde – Com coração de Pai”, publicada hoje por ocasião dos 150 anos da declaração do Esposo de Maria como Padroeiro da Igreja Católica.

 

Com o decreto Quemadmodum Deus, assinado em 8 de dezembro de 1870, o Beato Pio IX quis dar este título a São José. Para celebrar esta data, o Pontífice convocou um “Ano” especial dedicado ao Pai putativo de Jesus a partir de hoje até 8 de dezembro de 2021.

Protagonismo sem paralelo

A Carta apostólica traz os sinais da pandemia da Covid-19, que – escreve Francisco – nos fez compreender a importância das pessoas comuns, aquelas que, distantes dos holofotes, exercitam todos os dias paciência e infundem esperança, semeando corresponsabilidade. Justamente como São José, “o homem que passa desapercebido, o homem da presença quotidiana discreta e escondida”.

E mesmo assim, o seu é “um protagonismo sem paralelo na história da salvação”. Com efeito, São José expressou concretamente a sua paternidade ao ter convertido a sua vocação humana “na oblação sobre-humana de si mesmo ao serviço do Messias”. E por isto ele “foi sempre muito amado pelo povo cristão” (1).

Nele, “Jesus viu a ternura de Deus”, que “nos faz aceitar a nossa fraqueza”, através da qual se realiza a maior parte dos desígnios divinos. Deus, de facto, “não nos condena, mas acolhe-nos, abraça-nos, ampara-nos e perdoa-nos” (2). José é pai também na obediência a Deus: com o seu ‘fiat’, salva Maria e Jesus e ensina ao seu Filho “fazer a vontade do Pai”, cooperando “ao grande mistério da Redenção” (3).

Exemplo para os homens de hoje

Ao mesmo tempo, José é “pai no acolhimento”, porque “acolhe Maria sem colocar condições prévias”, um gesto importante ainda hoje – afirma Francisco – “neste mundo onde é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher”. Mas o Esposo de Maria é também aquele que, confiante no Senhor, acolhe na sua vida os acontecimentos que não compreende com um protagonismo “corajoso e forte”, que deriva “da fortaleza que nos vem do Espírito Santo”.

Através de São José, é como se Deus nos repetisse: “Não tenhais medo!”, porque “a fé dá significado a todos os acontecimentos, sejam eles felizes ou tristes”. O acolhimento praticado pelo pai de Jesus “convida-nos a receber os outros, sem exclusões, tal como são”, com “uma predileção especial pelos mais frágeis” (4).

“Patris corde” evidencia, ainda, “a coragem criativa” de São José, “o qual sabe transformar um problema numa oportunidade, antepondo sempre a sua confiança na Providência”. Ele enfrenta os “problemas concretos” da sua Família, exatamente como fazem as outras famílias do mundo, em especial aquelas migrantes. Protetor de Jesus e de Maria, José “não pode deixar de ser o Guardião da Igreja”, da sua maternidade e do Corpo de Cristo: todo necessitado é “o Menino” que José continua a guardar e de quem se pode aprender a “amar a Igreja e os pobres i” (5).

A dignidade do trabalho

Honesto carpinteiro, o Esposo de Maria ensina-nos também “o valor, a dignidade e a alegria” de “comer o pão fruto do próprio trabalho”. Esta acepção do pai de Jesus oferece ao Papa a ocasião para lançar um apelo a favor do trabalho, que se tornou uma  “urgente questão social” até mesmo nos países com certo nível de bem-estar.

“É necessário tomar renovada consciência do significado do trabalho que dignifica”, escreve Francisco, que “torna-se participação na própria obra da salvação” e “oportunidade de realização” para si mesmos e para a própria família, “núcleo originário da sociedade”. Eis então a exortação que o Pontífice faz a todos para “redescobrir o valor, a importância e a necessidade do trabalho”, para “dar origem a uma nova «normalidade», em que ninguém seja excluído”. Em especial, diante do agravar-se do desemprego por causa da pandemia da Covid-19, o Papa pede a todos que se empenhem para que se possa dizer: ”Nenhum jovem, nenhuma pessoa, nenhuma família sem trabalho!” (6).

“Não se nasce pai, torna-se tal”

“Não se nasce pai, torna-se tal”, afirma ainda Francisco, porque “cuida-se responsavelmente” de um filho assumindo a responsabilidade pela sua vida. Infelizmente, na sociedade atual, “muitas vezes os filhos parecem ser órfãos de pai” que sejam capazes de “introduzir o filho na experiência da vida”, sem  prendê-lo “nem subjugá-lo”, mas tornando-o “capaz de opções, de liberdade, de partir”.

Neste sentido, José recebeu o apelativo de “castíssimo”, que é “o contrário da posse”: ele, com efeito, “soube amar de maneira extraordinariamente livre”, “soube descentralizar-se” para colocar no centro da sua vida, Jesus e Maria. A sua felicidade está no “dom de si mesmo”: nunca frustrado e sempre confiante, José permanece em silêncio, sem lamentações, mas realizando “gestos concretos de confiança”. A sua figura, portanto, é exemplar, evidencia o Papa, num mundo que “precisa de pais e rejeita os dominadores”, rejeita quem confunde “autoridade com autoritarismo, serviço com servilismo, confronto com opressão, caridade com assistencialismo, força com destruição”.

Na décima nota, “Patris corde” revela também um hábito da vida de Francisco: todos os dias, o Pontífice reza uma oração ao Esposo de Maria “tirada dum livro francês de devoções, do século XIX, da Congregação das Religiosas de Jesus e Maria”. Trata-se de uma oração que “expressa devoção e confiança” a São José, mas também “certo desafio”, explica o Papa, porque conclui-se com estas palavras: “Que não se diga que eu Vos invoquei em vão, e dado que tudo podeis junto de Jesus e Maria, mostrai-me que a vossa bondade é tão grande como o vosso poder”. A Carta apostólica “Patris corde” é acompanhada da publicação do Decreto da Penitenciaria Apostólica, que anuncia o “Ano de São José” especial convocado pelo Papa e a relativa concessão do “dom de Indulgências especiais”.

Vatican News

No Ano de São José, o dom das Indulgências

  

 Presépio na Igreja de Santa Ana, no Vaticano 

 
O Decreto da Penitenciaria Apostólica oferece a possibilidade até 8 de dezembro de 2021 de receber Indulgências especiais ligadas à figura de São José, “chefe da celeste Família de Nazaré”. É dada especial atenção aos que sofrem neste momento de pandemia.

Benedetta Capelli/Mariangela Jaguraba  – Vatican News

São José, um “tesouro” que a Igreja continua a descobrir. É a bela imagem contida no Decreto da Penitenciaria Apostólica, assinado pelo cardeal Mauro Piacenza, no qual é delineada a figura do “guardião de Jesus”. O Papa Francisco dedicou-lhe um Ano especial, 150 anos após sua proclamação como Padroeiro de toda a Igreja. Daí a decisão da Penitenciaria, de acordo com a vontade do Pontífice, em conceder a Indulgência plenária até 8 de dezembro de 2021 nas condições habituais: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração de acordo com as intenções do Papa.

Meditar sobre São José

Participando do Ano de São José “com o espírito desprendido de qualquer pecado”, os fiéis poderão obter a Indulgência através de várias modalidades que a Penitenciaria enumera no Decreto.

Quem meditar “pelo menos 30 minutos a oração do Pai-Nosso”, ou participar num retiro espiritual, mesmo por um dia “que inclus uma meditação sobre São José”, poderá beneficiar deste dom especial. “São José, verdadeiro homem de fé, convida-nos”, diz o Decreto, “a redescobrir a nossa relação filial com o Pai, a renovar a fidelidade à oração, a ouvir e corresponder com profundo discernimento à vontade de Deus”.

A misericórdia no nome do “homem justo”

A Indulgência pode ser obtida ao realizar “uma obra de misericórdia corporal ou espiritual”, seguindo o exemplo de São José, “depositário do mistério de Deus”, que “nos exorta a redescobrir o valor do silêncio, da prudência e da lealdade no cumprimento dos nossos deveres”. A virtude da justiça, praticada por José, é “lei da misericórdia” e é “a misericórdia de Deus que leva a verdadeira justiça ao cumprimento”.

A oração na família

Rezar o Terço em família e entre namorados é uma das formas de se obter este dom. São José foi o esposo de Maria, pai de Jesus e guardião da família de Nazaré. Ali floresceu a sua vocação. A este propósito, a Penitenciaria Apostólica convida as famílias cristãs a recriar “a mesma atmosfera de comunhão íntima, de amor e oração que se vivida na Sagrada Família”.

Por um trabalho digno

Quem olhar para o “artesão de Nazaré” com confiança para encontrar um trabalho e para que ele seja digno para todos, poderá  obter a indulgência plenária, estendida também a quem “confiar no seu trabalho quotidianamente à proteção de São José”. Em 1º de maio de 1955, Pio XII instituiu a festa do santo “com a intenção de que a dignidade do trabalho fosse reconhecida por todos e que inspirasse a vida social e as leis, com base na divisão justa dos direitos e deveres”.

Uma oração pela Igreja que sofre

O Decreto da Penitenciaria Apostólica prevê uma Indulgência “aos fiéis que rezarem a ladainha a São José (para a tradição latina), ou o Akathistos a São José, por inteiro ou pelo menos em parte (para a tradição bizantina), ou alguma outra oração a São José, própria das outras tradições litúrgicas”. Orações que sejam a favor “da Igreja perseguida ad intra e ad extra e pelo alívio de todos os cristãos que sofrem toda a forma de perseguição” porque, lê-se no texto, “a fuga da Sagrada Família para o Egito mostra-nos que Deus está onde o homem está em perigo, onde sofre, onde foge, onde vive a rejeição e o abandono”.

Um santo universal

Outras ocasiões para obter a Indulgência plenária dizem respeito a “qualquer oração legitimamente aprovada ou ato de piedade em honra a São José”, como por exemplo, explica a Penitenciaria, “A ti, ó Beato José”, especialmente “nas festas de 19 de março e 1º de maio, na Festa da Sagrada Família de Jesus, Maria e José, no domingo de São José (segundo a tradição bizantina), no dia 19 de cada mês e toda a quarta feira, dia dedicado à memória do Santo, segundo a tradição latina”.

No decreto lembra-se a universalidade do patrocínio de José à Igreja, relatando as palavras de Santa Teresa de Ávila que o considerava mais do que outros santos, capaz de socorrer em muitas necessidades. “Uma atualidade renovada para a Igreja do nosso tempo, em relação ao novo milénio cristão”, é o que São João Paulo II evidenciava a respeito de José.

O conforto na pandemia

Especial atenção a quem sofre nesta emergência de coronavírus. O Decreto afirma que “o dom da Indulgência plenária é particularmente estendido aos idosos, aos doentes, aos agonizantes e a todos aqueles que por motivos legítimos não podem sair de casa”. Quem rezar “um ato de piedade em honra de São José, oferecendo com confiança a Deus as dores e dificuldades de sua vidas”, poderá receber este dom “com um espírito distante de qualquer pecado e com a intenção de cumprir, o mais rápido possível, as três condições habituais, na sua própria casa ou onde o impedimento os detém”. 

O papel dos sacerdotes

A exortação final é aos sacerdotes para que “se ofereçam com espírito disposto e generoso à celebração do Sacramento da Penitência e administrem frequentemente a Sagrada Comunhão aos enfermos”.

Vatican News

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Famílias desafiadas a uma vivência “mais verdadeira” do Natal

 

 

Preparar o Natal em família, a partir da encíclica Laudato Si’, é o novo desafio da Catequese e da Pastoral Familiar do Patriarcado de Lisboa. Semanalmente, a família Paiva Brandão e a catequista Filipa Ribeiro deixam desafios para este tempo de “maior recolhimento” e que aponta a “uma vivência mais realista e mais verdadeira do Natal”.


O Sector da Catequese e a Pastoral Familiar do Patriarcado de Lisboa apresentaram, na passada semana, o primeiro episódio da iniciativa Presépio Laudato Si’. Todas as semanas do Advento e durante o tempo do Natal, através de um vídeo curto, as famílias são “desafiadas a construírem o presépio e a conversarem sobre a encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum”, neste ano que lhe é dedicado e em que se assinalam os cinco anos da sua publicação. “Esta iniciativa tem como objetivo ajudar as famílias a viverem este tempo de maior recolhimento”, começa por explicar, ao Jornal VOZ DA VERDADE, o padre Tiago Neto, diretor do Sector da Catequese de Lisboa, que assegura fazer todo o sentido a relação entre o Natal e a encíclica do Papa Francisco, particularmente no ponto 99 do documento, onde é realçada a “centralidade do mistério de Cristo”. “De alguma forma, vemos aqui uma relação estreita entre a encarnação do Filho de Deus – Mistério do Natal – e o destino da criação inteira. Cristo está no centro de tudo e, por isso, no centro daquilo que é a criação do mundo, a criação do Homem”, acrescenta o sacerdote.

Surpresa
Para apresentar cada vídeo semanal, o Sector da Catequese desafiou a família Paiva Brandão. “Foi inesperado, ficámos surpreendidos, até porque não temos, enquanto família, experiência de gravação a este nível, mas procurámo-nos ‘agarrar’ à frase: ‘Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos’”, começa por partilhar Diogo, de 41 anos, que, tal como a sua esposa, Isabel, da mesma idade, sentiram “orgulho em poder fazer esta caminhada e ajudar mais famílias a prepararem o nascimento de Cristo”. Atitude mais desprendida tiveram os seus três filhos. Diogo, com 12 anos, José Maria, de 8, e Francisco, com 3, “ficaram numa excitação imediata, pois queriam conhecer um estúdio de gravação a sério”, e nem o facto de terem que despender bastantes horas para as gravações os fez esmorecer. “As gravações dos primeiros quatro episódios confirmaram isso mesmo, a extrema alegria dos nossos filhos em participar neste projeto”, conta Diogo.

Um “desafio diário”
A família Paiva Brandão pertence ao movimento das Equipas de Nossa Senhora, vive em Oeiras, mas faz parte da paróquia de São Domingos de Rana – onde Isabel é catequista do 6.º volume. Ao Jornal VOZ DA VERDADE, Isabel refere que, apesar de todos os anos viverem a preparação do Natal em família, começando pela construção do presépio, esta participação no Presépio Laudato Si’ vem ajudar a tomar “ainda mais consciência que, em tudo o que fazemos, podemos e devemos pensar se estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para protegermos o meio ambiente”. Diogo explica que essa preocupação pela casa comum sempre esteve presente na educação dos filhos e defende que isso “não pode ser só ensinamento, sem prática”. “Esta preocupação é feita em gestos de proteção e defesa da Terra, como a reciclagem em casa, a poupança da água, o desligar a luz quando saem de uma divisão da casa, o não desperdício alimentar, mas também no respeito pelos outros e pela família, como nos fala o primeiro vídeo, e o cuidarem da relação com Deus e com eles próprios”, exemplifica. “O facto de os nossos filhos participarem no Presépio Laudato Si’, e estudarem os diálogos, tem ajudado a tomarem consciência que esta preocupação pela casa comum é um desafio diário, a ser ‘construído’ todos os dias”, reforça este pai.




  • Leia a reportagem completa na edição do dia 6 de dezembro do Jornal VOZ DA VERDADE, disponível nas paróquias ou em sua casa.

Patriarcado de Lisboa

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O Papa na intenção de dezembro: rezando, mudamos a realidade e os nossos corações

 

NOTA: Se estiver a utilizar o seu TELEMÓVEL, o acesso ao VIDEO contido nesta página, apenas será possível se seguir as instruções indicadas AQUI

Na intenção de oração para este mês, o Santo Padre recorda que, por intermédio de uma vida de oração, nutrimos o nosso relacionamento com Jesus Cristo. “O nosso coração muda quando reza”, diz Francisco.

Mariangela Jaguraba - Vatican News

Foi divulgada, nesta terça-feira (1/12), a videomensagem do Papa Francisco com a intenção de oração para dezembro, último mês de 2020, ano marcado pela pandemia da Covid-19. O Santo Padre confia a intenção de oração a toda Igreja por untermédio da Rede Mundial de Oração do Papa.

“O coração da missão da Igreja é a oração. A oração é a chave para podermos entrar em diálogo com o Pai. Cada vez que lemos uma pequena passagem do Evangelho escutamos Jesus que nos fala. Conversamos com Jesus. Escutamos Jesus e respondemos. E isto é a oração. Rezando, mudamos a realidade. E mudamos os nossos corações. O nosso coração muda quando reza. Podemos fazer muitas coisas, mas sem oração não funciona. Rezemos para que a nossa relação com Jesus Cristo se alimente da Palavra de Deus e de uma vida de oração. Em silêncio, cada um reze com o coração.”

A oração do Papa durante a pandemia

O Papa é um homem de oração e a videomensagem testemunha isso com imagens tiradas dos momentos mais emocionantes de 2020: a oração pela pandemia na Praça de São Pedro, vazia, a sua peregrinação ao crucifixo de São Marcelo na Via del Corso, no centro de Roma, os momentos de recolhimento diante do ícone bizantino da Salus Populi Romani na Basílica Romana de Santa Maria Maior. Para o Papa Francisco, a oração não se reduz apenas a um espaço ou momento de contemplação interior. A oração produz sempre uma mudança.

O diretor Internacional da Rede Mundial de Oração do Papa, pe. Frédéric Fornos S.J, recorda que a missão da Igreja está ao serviço dos desafios do mundo e isto não é possível sem oração. Francisco resumiu de forma muito simples: “O coração da missão da Igreja é a oração”.

“Para muitos, a oração resume-se num momento de silêncio ou reflexão, mas para aqueles que descobrem a sua profundidade é a respiração do coração.”

"A oração abre-nos para o Amor, que tem rosto, Jesus Cristo, e leva-noa ao Pai. A oração é essencial para a missão da Igreja. Rezemos para que a nossa relação pessoal com Jesus seja sempre nutrida pela Palavra de Deus e por uma vida de oração."

O vídeo do Papa deste mês termina com um convite especial de Francisco para rezar com o coração, durante o seu encontro com a Rede Mundial de Oração, em 28 de junho de 2019, por ocasião dos 175 anos do Apostolado da Oração.

Na Audiência Geral do dia 4 de novembro, Francisco aproveitou a ocasião para explicar a vida de oração que Jesus sempre teve: “Durante a sua vida pública, Jesus recorre constantemente à força da oração. Os Evangelhos mostram-nos isto quando ele se retira para lugares isolados para rezar. São observações sóbrias e discretas, que só nos permitem imaginar esses diálogos orantes. No entanto, eles testemunham claramente que, mesmo nos momentos de maior dedicação aos pobres e doentes, Jesus nunca descuidou o seu diálogo íntimo com o Pai.”

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