quarta-feira, 13 de abril de 2022

Papa: A paz de Cristo é desarmada. A guerra é uma traição blasfema ao Senhor da Páscoa

 
 
"As armas do Evangelho são a oração, a ternura, o perdão e o amor gratuito ao próximo, a todos. (...) A guerra é uma ação humana que leva à idolatria do poder", disse Francisco, que fez a sua catequese sobre a Semana Santa.
 

Bianca Fraccalvieri – Vatican News

O Papa fez uma pausa na sua série das catequeses sobre os idosos e dedicou a sua reflexão na Audiência Geral de hoje à Semana Santa, com o tema "A paz da Páscoa".

Diante de milhares de fiéis entusiastas na Sala Paulo VI, Francisco explicou que a Semana Santa vai do Domingo de Ramos ao Domingo da Páscoa. No domingo passado, Cristo entra solenemente em Jerusalém, acolhido como Messias.

A paz do mundo é apenas um intervalo entre guerras

Com efeito, disse ainda Francisco, a paz que Jesus nos dá na Páscoa não segue as estratégias do mundo, que acredita poder obtê-la através da força, da conquista e de várias formas de imposição. “Esta paz, na realidade, é apenas um intervalo entre guerras.”

A paz do Senhor segue o caminho da mansidão e da cruz; no entanto, é difícil aceitá-la. De facto, a multidão que aclamava Jesus é a mesma multidão que alguns dias depois grita “Crucifica-o e, com medo e desilusão, não levanta um dedo por Ele.

A paz de Cristo é desarmada

O Papa citou o escritor russo Dostoievski, em especial a obra Lenda do Grande Inquisidor, que fala de Jesus que, após vários séculos, regressa à Terra. No livro, o Inquisidor interroga e critica ferozmente Cristo, esperando uma resposta do mesmo nível. Mas também aqui, Cristo reage com um gesto dócil. Francisco então comentou, ao fazer referência à guerra na Ucrânia:

“[ A paz de Jesus não domina os outros, nunca é uma paz armada. As armas do Evangelho são a oração, a ternura, o perdão e o amor gratuito ao próximo, a todos. Esta é a forma de trazer a paz de Deus ao mundo. É por isso que a agressão armada destes dias, como qualquer guerra, é um ultraje contra Deus, uma traição blasfema ao Senhor da Páscoa, preferindo sempre, em vez do seu rosto manso, o do falso deus deste mundo. A guerra é uma ação humana que leva à idolatria do poder.]”

O poder mundano, acrescentou o Papa, só deixa destruição e morte. A Páscoa é então a verdadeira festa de Deus e do homem, e o seu significado é “passagem”, ainda mais emblemático neste período:

“Especialmente este ano, é a ocasião abençoada para passar do Deus mundano para o Deus cristão, da avidez que levamos dentro de nós para a caridade que nos liberta, da expetativa de uma paz trazida pela força para o compromisso de testemunhar concretamente a paz de Jesus. Coloquemo-nos perante o Crucificado, a fonte da nossa paz, e peçamos-lhe paz do coração e paz no mundo.”

VN

domingo, 10 de abril de 2022

Homilia no Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

 

 

 O caminho aberto na humildade de Cristo 

 
Caríssimos 

Iniciamos esta Semana Maior de 2022 num tempo difícil para a humanidade, em que os males sempre temidos da peste, da fome e da guerra se traduzem de novo em muitas situações, mais próximas ou mais distantes, mas que são irrecusavelmente nossas, na terra comum de todos.
Principalmente nesta semana, queremos avivar a consciência de que esses males tiveram e continuam a ter resposta da parte de Deus. Sim, de Deus que os compartilha e salva na paixão, morte e ressurreição de Cristo. Batizados em Cristo, continuaremos a ser essa resposta, no mesmo Espírito e em idêntica comunhão com todos. Deus responde como companhia e fonte inesgotável de vida, agora para depois.
Convém sempre, em cada celebração, guardar as palavras da “oração coleta”, que geralmente acentuam o seu sentido particular. A de hoje deu à paixão de Cristo um significado talvez surpreendente. Começava assim: «Deus eterno e omnipotente, que, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e padecesse o suplício da cruz…».
Prestemos toda a atenção a este passo: a encarnação e a cruz são o exemplo de humildade que Deus eterno e omnipotente nos quis dar em Jesus. Modo de dizer que a omnipotência divina não se manifesta como qualquer poder mundano, mas precisamente ao contrário, como entrega de si próprio, acompanhando-nos na fragilidade humana e mesmo na dor mais aguda e imerecida, como foi a de Cristo, que assumiu a de tantos.
Precisamente no “húmus” da nossa humanidade comum. Reparemos como humanidade e humildade se aproximam na grafia e no significado a não perder... Só a omnipotência do amor divino conseguiria tanto, salvando-nos a todos com humildade vitoriosa.
E a oração continuava, pedindo que a mesma humildade que venceu em Jesus nos assegure a nós a sua vitória pascal. Uma humildade que vence no contraste com os poderes impositivos daquela ou desta altura, esses sim passageiros e derrotados como acabam por ser…: «Fazei que sigamos os ensinamentos da sua paixão, para tomarmos parte na glória da sua ressurreição.»

Trata-se duma via-sacra a percorrer com Jesus, como ele a percorreu connosco e continua a percorrer nos mais árduos caminhos das vidas individuais e coletivas. Se o fizermos, chegaremos aonde Ele chegou e alargaremos no mundo a sua Páscoa. É o que celebramos agora e nos incumbe sempre.
Deus salva porque nos acompanha onde mais precisamos de ser acompanhados. Pouco mais de trinta anos da vida de Jesus neste mundo, mostram-nos como foi e como continua a ser. Como naquela altura aconteceu, nascido pobre em Belém, refugiado a seguir no Egito, humilde e trabalhador na oficina de Nazaré, calcorreando depois as margens do lago e os caminhos da Galileia à Judeia, sem evitar sequer os da Samaria, ou saindo de Israel para terra de gentios: eis Deus humanado e convivente, até na própria morte, a que não se eximiu por fim.
Assim continua a ser, agora e ressuscitado, multiplicando os sinais da sua presença no mundo, também e sobretudo junto dos mais pobres de todas as pobrezas, ou oprimidos de todas as opressões. Sinais da sua presença são os que, movidos pelo Espírito que nos deixou, lhe reproduzem os gestos salvadores e ecoam a sua voz consoladora, daqui até à Ucrânia e da Ucrânia a todos os cenários de muitos dramas e tragédias que não faltam por esse mundo além, ou aquém.
Muito significativo é o facto de entre tantos deuses e imperadores daquela altura, com o seu cortejo de pompas e opressões, os primeiros cristãos terem descoberto e cantado o inaudito contraste da humildade de Cristo. Ouvimo-lo há pouco, num hino bem precoce, que havemos de retomar frequentemente, para que ele ressoe nas nossas vidas e atitudes. «Cristo Jesus, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si próprio. […] Por isso Deus o exaltou e lhe deu o nome que está acima de todos os nomes…». Foi este o caminho da Páscoa de Cristo e é o que nos dispomos a seguir também.
Foi este o caminho da humildade de Deus e só este pode ser o nosso, para que a Páscoa continue a acontecer. Deus é sempre humilde e assim se diz em Cristo, sua palavra encarnada. Assim como na criação que nos mantém vivos Deus é tão discreto que corremos o risco de não O aperceber, assim na redenção com que nos recria em Cristo, tudo é humilde porque tudo é dom. Dom que não se impõe mas oferece, para que todos tenham vida e vida em abundância - e apenas isto procurando.

Tiveram de aprendê-lo, os primeiros seguidores de Jesus. Tiveram de o descobrir como servo, para assim o adorar como Senhor. E Senhor porque capaz de se entregar e de vencer precisamente desse modo. Ouvimo-lo há pouco no Evangelho: «Levantou-se também entre eles uma questão: qual deles se devia considerar o maior? Disse-lhes Jesus: […] O maior entre vós seja como o menor, e aquele que manda seja como quem serve. Pois quem é o maior: o que está à mesa ou o que serve? Ora Eu estou no meio de vós como aquele que serve”».
Tiveram de o aceitar assim e de o imitar depois. Um depois que dura até agora e que nos propomos retomar nesta Páscoa. Somos Igreja de Cristo no mundo, quando lhe retomamos a feição, mais conforme e verdadeira. Para que Deus nos reconheça como seus e a Páscoa de Cristo se difunda.
E se difunda agora, quando entre nós tantos refugiados anseiam pela recuperação da sua terra e pela vida dos seus. Os gestos de comunhão espiritual e solidariedade concreta que se têm somado nestas trágicas semanas, mostram o melhor do coração humano e reabrem o futuro que a guerra quis fechar. São prenúncios daquela vida que ressuscitou dum sepulcro que parecia fechado. Fulguram a Páscoa que Cristo garante. Na humildade e no serviço, vivamos uma semana realmente “maior”.


Sé de Lisboa, 10 de abril de 2022
+ Manuel, Cardeal-Patriarca

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Papa Francisco mostra a bandeira ucraniana vinda de Bucha

 
  Papa Francisco mostra a bandeira ucraniana vinda de Bucha  
 
No final da audiência geral desta quarta-feira (06/04), o Papa condenou o "massacre" na cidade ucraniana, a poucos quilómetros de Kiev, de onde foram divulgadas fotografias e informações sobre os corpos de civis nas ruas. O Pontífice reiterou o seu apelo para "calar as armas", depois mostrou uma bandeira vinda diretamente de Bucha e acolheu no palco da Sala Paulo VI, um grupo de crianças vindas da Ucrânia: "É difícil ser desenraizado da própria terra por causa da guerra".
 

Salvatore Cernuzio – Vatican News

Um "massacre" diante do qual sobe um grito aos céus: "Acabem com esta guerra, calem-se as armas, parem de semear morte e a destruição". Francisco falou em tom sério na Sala Paulo VI. Diante dos seus olhos estão as imagens de mais de 70 corpos de civis espalhados pelas ruas, de mãos atadas atrás das costas, em Bucha, uma cidade ucraniana a poucos quilómetros de Kiev, cujas fotos foram divulgadas pelas autoridades locais juntamente com relatos de valas comuns. O mundo ficou indignado com estas terríveis fotografias, que estão a ser investigadas como "crimes de guerra".

Um "massacre" é como Francisco definiu no final da audiência geral. "As recentes notícias sobre a guerra na Ucrânia, em vez de trazer alívio e esperança, atestam novas atrocidades, como o massacre de Bucha", afirma o Pontífice.

Crueldades cada vez mais horrendas, perpetradas também contra civis, mulheres e crianças indefesas. São vítimas cujo sangue inocente clama ao céu e implora: "Acabem com esta guerra! Silenciem as armas! Parem de semear a morte e a destruição".

O Papa pede aos fiéis que rezem por isto e, de cabeça baixa, fica em silêncio por alguns momentos. Depois levanta-se e mostra a todos uma bandeira em dois tons de verde, com uma cruz desenhada e escritas em redor, em ucraniano: "Ontem, direto de Bucha, trouxeram-me esta bandeira. Esta bandeira vem da guerra, da cidade martirizada de Bucha", disse.

Algumas crianças ucranianas sobem ao palco, acompanhadas por seus pais. A mais nova está no colo da sua mãe, e o maior leva um desenho. "Saudemo-los e rezemos junto com eles", exorta o Papa Francisco. E comenta:

"Estas crianças tiveram que fugir e chegar a uma terra estranha: este é um dos frutos da guerra. Não os esqueçamos, e não esqueçamos o povo ucraniano".

Francisco dobra a bandeira, beija e abençoa-a. Em seguida, entrega alguns ovos de Páscoa às crianças. Carícias, mãos na cabeça, um toque na bochecha da menor: gestos de ternura para os que ainda estão a sentir o choque do barulho das bombas e da fuga das suas próprias casas.

"É difícil ser desenraizado da própria terra por causa de uma guerra".

Um comentário que o Pontífice pronunciou de improviso ao sentar-se. Já na conferência de imprensa no voo de retorno de Malta, o Papa Francisco tinha comentado o massacre em Bucha, notícia da qual um repórter o tinha informado. "A guerra é sempre uma crueldade, uma coisa desumana e vai contra o espírito humano – não digo espírito cristão – contra o espírito humano. É o espírito de Caim”, disse o Papa. “É o espírito de Caim, o espírito 'Caimista’”.

Com o seu olhar sempre voltado para a Ucrânia, Francisco agradeceu aos fiéis polacos - os presentes no Salão Paulo VI e os ligados através da media - pelo espírito de acolhimento demonstrado aos refugiados ucranianos. Quase três milhões, de acordo com as últimas estimativas. "Vocês demonstraram uma extraordinária e exemplar generosidade para com os nossos irmãos e irmãs ucranianos, para os quais abriram os vossos corações e as portas das vossas casas", disse o Papa. "Muito obrigado, muito obrigado pelo que fazem aos ucranianos", acrescentou ele. Por fim, uma bênção: "Que o Senhor abençoe a vossa pátria pela vossa solidariedade e vos mostre o Seu Rosto".

Vatican News

O Papa: ONU impotente na guerra na Ucrânia, prevalece a lógica dos poderosos

 
 
A catequese de Francisco foi dedicada à sua recente viagem apostólica a Malta. Durante o encontro com os fiéis na Sala Paulo VI, o Papa disse que "hoje, fala-se frequentemente de “geopolítica”, mas infelizmente a lógica dominante é a das estratégias dos Estados mais poderosos para afirmar os seus interesses alargando a própria área de influência económica, ideológica e militar".
 

Mariangela Jaguraba - Vatican News

A recente viagem apostólica do Papa Francisco a Malta foi o tema da catequese do Pontífice na Audiência Geral desta quarta-feira (06/04), realizada na Sala Paulo VI.

A viagem apostólica do Papa a Malta estava planeada para ser realizar em 2020, mas foi adiada por causa da pandemia da Covid-19. Segundo o Papa, "poucas pessoas sabem que Malta, embora sendo uma ilha no meio do Mediterrâneo, recebeu o Evangelho muito cedo, porque o Apóstolo Paulo naufragou perto do seu litoral e milagrosamente salvou-se a si mesmo e a todos os que estavam no barco, mais de duzentas e setenta pessoas. Os Atos dos Apóstolos relatam que os malteses acolheram todos «com rara humanidade»."

Um mundo mais fraterno, mais habitável

Escolhi precisamente estas palavras: com rara humanidade, como lema da minha Viagem, pois indicam o caminho a seguir não só para enfrentar o fenómeno dos migrantes, mas em geral para que o mundo se torne mais fraterno, mais habitável, e se salve de um “naufrágio” que ameaça a todos nós que estamos, como aprendemos, no mesmo barco, todos. Malta é um lugar-chave neste horizonte".

Primeiramente, Malta é um lugar-chave "geograficamente, devido à sua posição no centro do mar entre a Europa e a África, mas que também banha a Ásia. Malta é uma espécie de “rosa dos ventos”, onde povos e culturas se encontram; é um ponto privilegiado a partir do qual se pode observar a área mediterrânea numa perspetiva de 360°. Hoje, fala-se frequentemente de “geopolítica”, mas infelizmente a lógica dominante é a das estratégias dos Estados mais poderosos para afirmar os seus interesses alargando a própria área de influência económica, ideológica e militar. Estamos a ver isto com a guerra", disse o Papa, acrescentando:

Malta representa, neste quadro, o direito e a força dos “pequenos”, das nações pequenas, mas ricas em história e civilização, que deveriam levar a cabo outra lógica: a do respeito, mas também a lógica da liberdade, da convivência das diferenças, oposta à colonização dos mais poderosos. Estamos a ver isto agora e não somente de uma parte, mas também da outra.

“Depois da Segunda Guerra Mundial, foram feitas tentativas para lançar as bases de uma nova história de paz, mas infelizmente, não aprendemos, a velha história de grandes potências concorrentes continuou. E, na atual guerra na Ucrânia, estamos a ver a impotência da Organização das Nações Unidas.”

A Europa foi formada por migrações

O segundo aspeto é que "Malta é um lugar-chave no que diz respeito ao fenómeno das migrações". "No Centro de acolhimento João XXIII, encontrei-me com muitos migrantes que chegaram à ilha após terríveis viagens", frisou o Papa, convidando a "ouvir os seus testemunhos, porque esta é a única forma de fugir da visão distorcida que frequentemente circula nos meios de comunicação e reconhecer os seus rostos, histórias, feridas, sonhos e esperanças desses migrantes".

Cada migrante é único, não é um número, é uma pessoa, é único como cada um de nós. Cada migrante é uma pessoa com a própria dignidade, raízes e cultura. Cada um deles é portador de uma riqueza infinitamente maior do que os problemas que podem surgir. Não nos esqueçamos de que a Europa foi formada por migrações.

Malta é um "laboratório de paz"

Obviamente, "o acolhimento deve ser organizado, deve ser planeado juntos, no âmbito internacional", frisou o Papa, pois "o fenómeno migratório não pode ser reduzido a uma emergência, é um sinal dos nossos tempos. Deve ser lido e interpretado como tal. Pode tornar-se um sinal de conflito ou um sinal de paz".

A seguir, Francisco disse que o Centro de acolhimento de migrantes João XXIII, em Malta, é um "laboratório de paz", e que "Malta no seu conjunto é um laboratório de paz! Toda a nação com o seu comportamento é um laboratório de paz" e "pode cumprir esta missão se procurar nas suas raízes a seiva da fraternidade, da compaixão e da solidariedade. O povo maltês recebeu estes valores junto com o Evangelho, e graças ao Evangelho eles serão capazes de os manter vivos".

Testemunho cristão em todo o mundo

O terceiro aspeto é que "Malta é um lugar-chave também do ponto de vista da evangelização. De Malta e Gozo, as duas dioceses do país, muitos sacerdotes e religiosos, bem como fiéis leigos, partiram, dando testemunho cristão em todo o mundo. Como se a passagem de S. Paulo tivesse deixado a missão no DNA dos malteses! Por isso, a minha visita foi, primeiramente, um ato de gratidão, gratidão a Deus e ao seu santo povo fiel que está em Malta e Gozo".

O Papa recordou que em Malta "também sopra o vento do secularismo e a pseudocultura globalizada do consumismo, do neocapitalismo e do relativismo". "Também lá, portanto, é tempo de nova evangelização", frisou ele, recordando a visita à Gruta de São Paulo, ao Santuário Nacional Mariano de Ta' Pinu, na ilha de Gozo. "Lá senti palpitar o coração do povo maltês, que tem tanta confiança na sua Santa Mãe. Maria nos traz sempre de volta ao essencial, a Cristo crucificado e ressuscitado por nós, ao seu amor misericordioso. Maria nos ajuda a reavivar a chama da fé, atraindo o fogo do Espírito Santo, que anima o jubiloso anúncio do Evangelho de geração em geração, pois a alegria da Igreja é evangelizar!", disse ainda o Papa, recordando as palavras de São Paulo VI: "A vocação da Igreja é evangelizar. A alegria da Igreja é evangelizar. É a definição mais bonita da Igreja".

Francisco recordou o frade franciscano pe. Dionísio Mintoff, de 91 anos que continua a trabalhar no Centro de Acolhimento de Migrantes João XXIII, em Malta, com a ajuda de colaboradores da Diocese. "É um exemplo de zelo apostólico e amor pelos migrantes, muito necessário hoje", concluiu o Papa, agradecendo ao povo maltês pelo acolhimento humano e cristão.

Vatican News

domingo, 3 de abril de 2022

Papa Francisco - homilia da Missa em Floriana, Malta

 

 Santa Missa na Praça dos Celeiros, em Floriana. Malta 

 
"Que diferença entre o Mestre e os acusadores! Citaram estes a Escritura para condenar; Jesus, Palavra de Deus em pessoa, reabilita completamente a mulher, restituindo-lhe a esperança. Deste caso, aprendemos que qualquer advertência, se não for movida pela caridade e não contiver caridade, afunda ainda mais quem a recebe. Deus, pelo contrário, deixa sempre aberta uma possibilidade e sabe encontrar, todas as vezes, caminhos de libertação e salvação."

Papa Francisco

Homilia na Eucaristia

(Piazzale dei Granai, Floriana – 3 abril de 2022)

Jesus, «de madrugada, voltou outra vez para o templo e todo o povo vinha ter com Ele» (Jo 8, 2). Assim começa o episódio da mulher adúltera. O horizonte aparece sereno: numa manhã no lugar santo, no coração de Jerusalém. Protagonista é o povo de Deus, que no átrio do templo procura Jesus, o Mestre: deseja escutá-Lo, porque a sua palavra ilumina e encoraja. A sua doutrina não de forma alguma, abstrata: toca a vida e liberta-a, transforma-a, renova-a. Nisto se revela a intuição, o «faro» do povo de Deus, que não se contenta com o templo feito de pedras, mas reúne-se à volta da pessoa de Jesus. Nesta página, vislumbra-se o povo dos crentes de todos os tempos, o povo santo de Deus, que aqui em Malta é numeroso e vivaz, fiel na busca do Senhor, ligado a uma fé concreta, vivida. Por tudo isto vos agradeço!

Na presença do povo que O veio encontrar, Jesus não tem pressa: «sentou-Se – diz o Evangelho – e pôs-Se a ensinar» (8, 2). Mas, na escola de Jesus, há lugares vazios. Há alguns ausentes: são a mulher e os seus acusadores. Não foram ter com o Mestre como os outros, sendo diversas as razões da ausência: escribas e fariseus pensam que já sabem tudo, não precisam do ensinamento de Jesus; ao passo que a mulher é uma pessoa perdida, extraviada procurando a felicidade por caminhos errados. Temos, pois, ausências por motivos diferentes, como aliás será diferente o desfecho da própria vicissitude. Detenhamo-nos nestes ausentes.

Em primeiro lugar, os acusadores da mulher. Neles vemos a imagem daqueles que se vangloriam de ser justos, observadores da lei de Deus, pessoas regradas e justas. Não se preocupam com os próprios defeitos, mas mostram-se muito atentos na descoberta dos alheios. Assim se apresentam a Jesus: não com o coração disponível para O escutarem, mas «para O fazerem cair numa armadilha e terem de que O acusar» (8, 6). É um intento que fotografa a interioridade destas pessoas cultas e religiosas, que conhecem as Escrituras, frequentam o templo, mas subordinam tudo isto aos próprios interesses e não combatem os maus pensamentos que se agitam no seu coração. Aos olhos do povo, parecem peritos de Deus, e contudo não reconhecem Jesus; antes pelo contrário, veem-No como um inimigo que precisam de eliminar. Para o conseguir, colocam diante d’Ele uma pessoa, como se fosse uma coisa, chamando-a desdenhosamente «esta mulher» e denunciando publicamente o seu adultério. Pressionam para que a mulher seja apedrejada, derramando sobre ela a aversão que eles sentem pela compaixão de Jesus. E fazem tudo isto sob o manto da sua fama de homens religiosos.

Irmãos, irmãs, estas pessoas dizem-nos que, até na nossa religiosidade, se podem insinuar a traça da hipocrisia e o vício de apontar o dedo; e isto a todo o momento, em qualquer comunidade. Há sempre o perigo de entender mal Jesus, ter o seu nome nos lábios, mas negá-Lo nas obras. E pode-se fazê-lo mesmo quando se levantam estandartes com a cruz. Então como saber se somos discípulos na escola do Mestre? Pelo nosso olhar, pelo modo como olhamos para o próximo e como olhamos para nós mesmos.

Pelo modo como olhamos para o próximo: se o fazemos como Jesus nos faz ver hoje, isto é, com um olhar de misericórdia, ou de forma inquisitória, por vezes até desdenhosa, como os acusadores do Evangelho, que se erguem como defensores da Deus, mas não se apercebem de espezinhar os irmãos. Na realidade, quem julga defender a fé apontando o dedo contra os outros, até pode possuir uma visão religiosa, mas não adota o espírito do Evangelho, porque esquece a misericórdia, que é o coração de Deus.

Para compreender se somos verdadeiros discípulos do Mestre, é preciso verificar também como olhamos para nós mesmos. Os acusadores da mulher estão convencidos de que não têm nada a aprender. Com efeito a aparência externa é perfeita, mas falta a verdade do coração. São a figura dos crentes de cada época que fazem da fé um elemento de fachada, onde sobressai o aspeto exterior solene, mas falta a pobreza interior, que é o tesouro mais precioso do homem. De facto, para Jesus o que conta é a abertura disponível de quem não se sente perfeito, mas necessitado de salvação. Por isso, quando estivermos em oração e mesmo quando tomarmos parte em belas cerimónias religiosas, será bom perguntarmo-nos se estamos sintonizados com o Senhor. Podemos perguntá-lo diretamente a Ele: «Jesus, estou aqui convosco, mas Vós que quereis de mim? Que quereis que mude no meu coração, na minha vida? Como quereis que veja os outros?» Ser-nos-á útil rezar assim, porque o Mestre não Se satisfaz com a aparência, mas busca a verdade do coração. E quando Lhe abrimos de verdade o coração, Jesus pode operar maravilhas em nós.

Vemos acontecer isto mesmo na mulher adúltera. A sua situação parece irremediável, mas aos seus olhos abre-se um horizonte novo, inconcebível. Coberta de insultos, pronta a receber palavras implacáveis e severos castigos, com maravilha sua vê-se absolvida por Deus, que lhe abre de par em par um futuro inesperado: «Ninguém te condenou? – diz-lhe Jesus – Também Eu não te condeno. Vai e de agora em diante não tornes a pecar» (8, 10.11). Que diferença entre o Mestre e os acusadores! Estes citaram a Escritura para condenar; Jesus, Palavra de Deus em pessoa, reabilita completamente a mulher, restituindo-lhe a esperança. Deste caso, aprendemos que qualquer advertência, se não for movida pela caridade e não contiver caridade, afunda ainda mais quem a recebe. Deus, pelo contrário, deixa sempre aberta uma possibilidade e sabe encontrar, todas as vezes, caminhos de libertação e salvação.

A vida daquela mulher muda graças ao perdão. Apetece-me pensar que, perdoada por Jesus, ela por sua vez aprendeu a perdoar. Talvez passasse a ver os seus acusadores, já não como pessoas rígidas e perversas, mas como aqueles que lhe permitiram encontrar Jesus. O Senhor quer que também nós, seus discípulos, nós como Igreja, perdoados por Ele, nos tornemos testemunhas incansáveis de reconciliação: testemunhas dum Deus para o Qual não existe a palavra «irrecuperável»; dum Deus que perdoa sempre continua a crer em nós e todas as vezes dá a possibilidade de recomeçar. Não há pecado ou fracasso que, levados a Ele, não possam tornar-se ocasião para começar uma vida nova, diferente, sob o signo da misericórdia.

Assim é o Senhor Jesus; sabe-o bem quem fez experiência do seu perdão; quem, como a mulher do Evangelho, descobre que Deus nos visita através das nossas chagas interiores: é sobretudo nestas que o Senhor prefere fazer-Se presente, pois não veio para os sãos, mas para os doentes (cf. Mt 9, 12). E hoje esta mulher, que conheceu a misericórdia na sua miséria e volta curada pelo perdão de Jesus, sugere-nos, como Igreja, que principiemos de novo a frequentar a escola do Evangelho, a escola do Deus da esperança que nos surpreende sempre. Se O imitarmos, não seremos levados a concentrarmo-nos na denúncia dos pecados, mas a sair amorosamente à procura dos pecadores. Não ficaremos a contar os presentes, mas iremos eà procura dos ausentes. Não voltaremos a apontar o dedo, mas começaremos a pôr-nos à escuta. Não descartaremos os desprezados, mas olharemos como primeiros aqueles que são considerados últimos. Isto é o que Jesus nos ensina hoje com o exemplo. Deixemo-nos surpreender por Ele. Acolhamos com alegria a sua novidade.

Vatican News