domingo, 17 de abril de 2022

Homilia no Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

 

 

Para entender finalmente a Escritura

Ouvimos há pouco a Maria Madalena: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram…». Pois bem, nós estamos aqui neste dia inteiramente pascal porque sabemos onde Ele está. Como direis daqui a pouco: «Ele está no meio de nós!».
Aliás, também a discípula o soube e logo ali bem perto, quando Ele a chamou pelo nome. E depois os discípulos, quando nesse primeiro Domingo Jesus não precisou que lhe abrissem a porta da sala onde estavam para se apresentar no meio deles. E, daí até hoje, é a mesma presença que reconhecemos, preenchendo todo o espaço e todo o tempo: «Ele está no meio de nós!» E dizemo-lo com uma certeza surpreendente, que antecede tudo mais, como evidência que se impõe e o tempo não dilui.
Sim, poderei dizer por todos vós, que a presença de Cristo não é apenas memória do que disse e fez, como desde há dois milénios é transmitida. Não pensamos nele como em mais uma figura do passado, memorável que fosse por algum feito realizado. Guardamos certamente essas figuras e o seu legado, reconhecendo nelas o melhor que a humanidade atingiu e nos legou. Não é pouco e é sobretudo justíssimo que o façamos.
Mas com Jesus Cristo é diferente. Diferente porque não é passado só, mas presente hoje, como será amanhã. Preencheu tão totalmente o pouco espaço-tempo que foi o seu que o alargou a toda realidade em qualquer ocasião que seja. Sim, ressuscitou naquela altura precisa, a seguir ao silêncio do sábado. Mas, sobretudo sim, aí despontou o Domingo que não tem ocaso e o faz contemporâneo de cada um de nós. Assim o experimentamos e confessamos, como companhia permanente e total. Aliás, espera-nos agora aonde nos precede, em toda Galileia deste universo em expansão.
A Páscoa de Jesus abrange-nos como o fez a Saulo na estrada de Damasco, reduzindo tudo o que estava para trás a expetativa ou indício, finalmente compreendido. Trata-se duma presença que relativiza ou inclui todas as outras. A Páscoa de Jesus é um acontecimento absoluto, que reconfigura tudo o mais.

Com ela “ressuscitaremos para a luz da vida”, como pediu a oração coleta. Por isso o batismo que recebemos se chama também “iluminação”. Dêmo-nos conta de que efetivamente assim é, pois que o modo como vemos as coisas, próprias e alheias, só à luz da ressurreição de Cristo se consegue explicar.
Falei do batismo e devo dizê-lo mais devagar. Na antiga definição do sacramento, é obra da graça divina, mas pressupõe que não haja óbice da nossa parte. Daí a consciência que requer a quem o recebe e a quem o pede para outrem. Como acontecia com os primeiros cristãos e ainda sucede agora onde não há liberdade religiosa, implica risco e compromisso. Não se trata de tingir religiosamente a vida que se leva ou quer levar; trata-se, isso sim, de mergulhar profundamente na Páscoa de Cristo, para emergir diferente, com tudo o que ela exige e nos oferece além de nós.
Há inegavelmente um antes e um depois de Cristo, tanto na história do mundo como na história pessoal de cada um. Não é difícil aos historiadores verificarem que assim é, tal a diferença entre o que as culturas e civilizações tocadas pela mensagem cristã foram manifestando no modo de entender a dignidade humana, a relação com os outros e a presença no mundo e o que outras maneiras de ver tinham ou continuam a ter.
Igualmente no que a cada pessoa diz respeito. - Algum de nós pensaria como pensa, sobre si e sobre os outros, sobre a vida e sobre a morte, sobre o sentido ou não-sentido das coisas, se não reconhecesse a Jesus como o Cristo e não O sentisse em si e junto a si, nos múltiplos sinais da sua presença e nas constantes interpelações que vai fazendo?!
Interpelações constantes e redobradas agora, em tempo de profundas mudanças na cultura e na civilização, porque tanto tocam a valorização das coisas como a organização da vida coletiva. Não há campo em que a questão não se ponha e tudo nos coloca hoje numa situação semelhante à daqueles que primeiro viveram a ressurreição de Cristo. Precisamente aqueles que a essa luz pascal perceberam o que realmente vale.
No Ressuscitado compreenderam que a vida se ganha quando se oferece e que viver em Cristo é viver com os outros e para os outros, solidários como Ele foi e nos ensina a ser com todos e cada um, a começar pelos mais frágeis e injustiçados. Precisamente com esses se identificou Cristo crucificado. É estando com eles que mais estamos com Cristo, que assim mesmo ressuscitou.

Isto nos leva à última frase do Evangelho de há pouco. Diz que os discípulos «ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus havia de ressuscitar dos mortos».
Assim como já respondemos a Maria Madalena, dizendo que sabemos onde está o Senhor, digamos agora aos discípulos que sim, que entendemos a Escritura, segundo a qual Jesus havia de ressuscitar dos mortos. E respondamos convictamente tanto a uma como a outra interpelação.
Na verdade, toda a Escritura que antecede a vida de Jesus só encontra “pleno cumprimento” no movimento total que o nunca por demais citado hino da Carta aos Filipenses nos entoa: Sendo de condição divina, Cristo esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo e até à morte e morte de cruz; por isso mesmo Deus o elevou acima de tudo e lhe concedeu o nome que está acima de todo o nome (cf. Fl 2, 6 ss).
A promessa feita a Abraão pressupôs também alguma “morte”, no sentido em que perdeu a sua terra e se dispunha a perder o próprio filho. A saída do cativeiro egípcio pressupôs a “morte” de Moisés como príncipe, para se retomar como condutor do povo de Deus. A promessa feita a David viria a concretizar-se bem depois, quando daquele reino já não restava senão a profecia – e como esta se realizou em Jesus, de modo tão inesperado e despossuído de si.
Ressuscitar é renascer de Deus e inteiramente d’Ele, pressupondo o esvaziamento de nós próprios e do que desejaríamos só por nós. Ou melhor, convertendo o que em nós exista de aspiração pessoal mais profunda no perfeito cumprimento da vontade divina, para que seja esta a conduzir-nos, da crucifixão à glória.
Sabendo também que a vontade divina tanto nos quer a nós como quer a todos – e a todos nos oferece como sinais do seu amor. Por isso mesmo a cruz gloriosa tanto nos ergue para o Pai como nos oferece aos irmãos, na haste que se eleva e nos braços que se estendem.
Concretizar hoje mesmo esta verdade, na ação de graças que nos mantém em Deus e no serviço concreto que prestarmos aos outros, é viver a Páscoa por que o mundo espera. Sim, já entendemos que o caminho da ressurreição passa sempre pela cruz. Pois não se trata de fazer o que faríamos sozinhos, mas de oferecer aos outros o que só Deus em nós gera. Assim aconteceu com Cristo e por isso o temos redivivo e tão presente. Assim acontecerá connosco, quando a sua Páscoa for a nossa vida.
Entendeu-o São Paulo, quando também morreu para si e se ganhou em Cristo, dizendo-o depois em frases memoráveis, como esta, que indica um integral percurso cristão: «… Assim posso conhecê-lo a Ele, na força da sua ressurreição e na comunhão com os seus sofrimentos, conformando-me com Ele na morte, para ver se atinjo a ressurreição de entre os mortos» (Fl 3, 10-11).
Façamos Páscoa em nós, para a alargar aos outros em cada momento que seja. Quando morrer totalmente o egoísmo que aliás nos mataria, seja individual seja coletivamente; quando o bem dos outros imperar nas nossas escolhas e atitudes; quando a vontade de Deus nos levar ao serviço de cada um, começando pelos que mais nos requeiram: então o coração alarga-se e a ressurreição desponta. - Cristo está no meio de nós e por nós no meio de todos!

Sé de Lisboa, 17 de abril de 2022

+ Manuel, Cardeal-Patriarca

Patriarcado de Lisboa

Mensagem Urbi et Orbi: Deixemo-nos vencer pela paz de Cristo! A paz é possível

 
 2022.04.15 Messa di Pasqua e Benedizione Urbi et Ourbi 
 
Cerca de 100 mil pessoas participaram da Missa da Páscoa na Praça de S. Pedro, presidida pelo Papa Francisco, ouviram a sua mensagem pascal e receberam a benção Urbi et Orbi. O pensamento do Pontífice concentrou-se nos vários países e regiões que vivem conflitos, particularmente a Ucrânia. Na América Latina, rezou por quem viu "piorar as suas condições sociais".
 

Bianca Fraccalvieri – Vatican News

“Queridos irmãos e irmãs, feliz Páscoa! Jesus, o Crucificado, ressuscitou!”

Assim o Papa Francisco saudou os fiéis presentes na Praça de S. Pedro e todos os que acompanharam a missa da Páscoa conectados pelos meios de comunicação em todo o mundo.

Cerca de 100 mil fiéis participaram na cerimónia, que pôde finalmente ser celebrada na Praça, após dois anos de pandemia, com os tradicionais enfeites florais para acolher o anúncio da ressurreição de Cristo. 

Também os nossos olhos estão incrédulos, nesta Páscoa de guerra

Após a Missa, o Papa dirigiu-se à sacada central da Basílica Vaticana, de onde dirigiu a mensagem Urbi et Orbi (à cidade de Roma e a todo o mundo) e concedeu a Bênção Apostólica. Estava acompanhado pelos cardeais Renato Raffaele Martino e Michael Czerny.

O Pontífice repetiu as palavras de Cristo contidas no Evangelho de João, diante dos olhos incrédulos dos discípulos: «A paz esteja convosco!».

“Também os nossos olhos estão incrédulos, nesta Páscoa de guerra”, disse o Papa. Com todo o sangue e violência que vimos, temos dificuldade em acreditar que Jesus tenha verdadeiramente ressuscitado. “Terá porventura sido uma ilusão?”, questionou Francisco, que imediatamente respondeu: “Não. Não é uma ilusão!”.

E hoje, mais do que nunca precisamos Dele, no final de uma Quaresma que parece não ter fim. Em vez de sairmos juntos do túnel da pandemia, demonstramos que existe ainda em nós o espírito de Caim, que vê Abel não como um irmão, mas como um rival.

Por isso temos necessidade do Ressuscitado para acreditar na vitória do amor, para esperar na reconciliação. Só Ele o pode fazer.

Crianças vítimas da guerra, mas também da fome

O Papa então dirigiu o seu olhar para todas as realidades que necessitam do anúncio pascal. Falando da “martirizada” Ucrânia, usou termos como crueldade e insensatez e pediu mais uma vez que não se habitue à guerra. De modo especial, citou o sofrimento das crianças não só ucranianas, mas também “as que morrem de fome ou por falta de cuidados médicos, as que são vítimas de abusos e violências e aquelas a quem foi negado o direito de nascer”.

Pediu paz no Médio Oriente, em particular entre israelitas e palestinianos, no Líbano, na Síria e no Iraque. Paz também para a Líbia e para o Iêmen, para Mianmar e para o Afeganistão. Paz para todo o continente africano, particularmente na região do Sahel, na Etiópia, na República Democrática do Congo.

Na América Latina, a "guerra" social

Olhando para o continente americano, a oração do Papa é para que “Cristo ressuscitado acompanhe e assista as populações da América Latina, que, em alguns casos, viram piorar as suas condições sociais nestes tempos difíceis de pandemia, agravadas também por casos de criminalidade, violência, corrupção e tráfico de drogas”.

Falou também do Canadá, para que o Senhor ressuscitado acompanhe o caminho de reconciliação que a Igreja Católica no país está a percorrer com os povos autótones.

A paz é possível!

Francisco concluiu recordando que cada guerra traz consigo consequências que envolvem toda a humanidade: do luto ao drama dos refugiados, até à crise económica e alimentar de que já se veem os primeiros sintomas.

Cristo, todavia, exorta-nos a não nos rendermos ao mal e à violência.

“Deixemo-nos vencer pela paz de Cristo! A paz é possível, a paz é um dever, a paz é responsabilidade primária de todos!”

Vatican News

sábado, 16 de abril de 2022

Homilia na Vigília Pascal na Noite Santa

 

 

Não nos falta Cristo, não faltemos nós! 


Caríssimos 

Celebrando a Vigília Pascal e rememorando tudo quanto o texto sagrado nos trouxe
, da criação à nova criação de todas as coisas em Cristo, fazemos muito mais do que marcar uma data, ainda que sobremaneira importante.
Importante para nós, que aqui a podemos celebrar em paz; e não menos importante para os que a vivem entre a aflição da guerra, da Ucrânia a outros lugares em que a humanidade apesar de tudo sobrevive. Sobrevivência que a vitória de Cristo sobre a morte assinala e garante. Com eles estamos em oração, somando o nosso querer ao do próprio Deus da paz. Com eles permaneceremos, até que a guerra acabe e ainda depois.
Na verdade, estamos na fonte duma nova vida que nos faz reviver a nós – e por nós certamente a muitos mais, como pode e deve acontecer. A Páscoa é “passagem” de Deus por nós e passagem de tudo para Deus, que, Ele sim, é finalmente a nossa Terra Prometida, convivência eterna e comunhão perfeita.
É também surpresa, circunstanciada e total. Circunstanciada como ouvimos, naquele túmulo vazio que encheu de espanto quem o encontrou assim. Total sobretudo, porque nesse nada do que estava se assinalou o tudo que nos preenche agora: a vida ressuscitada de Cristo, que nos ressuscita também. São verdades que dizemos e cantamos com as palavras que a Liturgia nos oferece e sobretudo certezas com que Deus nos refaz.
A conotação batismal desta Vigília significa isso mesmo, com a Páscoa de Cristo a renovar-nos a nós. Assim o seguimos no percurso que fez, encontrando-o também na cruz deste mundo, como ela subsiste no drama da vida, nossa e dos outros. Aí mesmo encontramos a Cristo, para o seguirmos até ao fim.
Fim que pareceu quase nada naquele túmulo vazio e afinal foi tudo na vida que dali brotou. Porque totalmente entregue foi-nos inteiramente devolvida, como a sentimos em nós e a celebramos sempre, como se lá estivéssemos, como na verdade estamos.
Diante do túmulo vazio, concluamos que ressuscita com Cristo em Deus quem com Cristo se esvazia de si, para ser inteiramente de Deus como filho; e inteiramente para os outros, como verdadeiro irmão.

A tal nos conduz o Espírito batismal que perfaz o caminho de Cristo em cada um de nós. Por essa razão nos chamamos “cristãos”, porque ungidos pelo mesmo Espírito. Trata-se de algo de substantivo, que nos modifica realmente por dentro, e não de adjetivo ocasional e exterior. - Basta de “cristianismos” pretextuais e meramente decorativos, que tanto contrariam a causa do Evangelho!
Vida ressuscitada é vida que se esvazia de si, para ser preenchida pela caridade divina e assim mesmo se eternizar também, porque só a caridade nunca acabará. Foi assim com Jesus, em todo o seu percurso humano. Se pôde dizer um dia: «Eu o Pai somos um só», foi porque nada retinha de si e nada o movia que não fosse a vontade de Deus Pai, que inteiramente assumia como também sua.
Foi, nos trinta e poucos anos que viveu na terra, o que eternamente é em Deus: uma vida inteiramente recebida e inteiramente retribuída. Assim o confessamos no Credo: «Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro». O Espírito que assim o movia é o que nos oferece no batismo, para o sermos igualmente, divinizados e eternos em Deus. Deste modo foi absolutamente para todos, porque a vontade de Deus Pai é a salvação de cada um, como a atuação de Jesus sempre demonstrou. E como há de prosseguir através de quantos recebem o seu Espírito.
É este e só este o critério da santidade. Homens e mulheres de vários tempos e condições, crianças, adultos e anciãos que fossem, são venerados nos altares onde subiram porque antes desceram ao mais chão e comezinho da vida dos outros, nas variadas formas que a dedicação encontra para servir quem precisa. Esvaziados de si, como o túmulo de Cristo estava então, reviveram com Ele na caridade divina.
Tudo isto e melhor dito ouvimo-lo há pouco a São Paulo, como escreveu aos cristãos de Roma, naquele primeiríssimo tempo: «Todos nós que fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte. Fomos sepultados com Ele pelo Batismo na sua morte, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova».
E não é menos do que isto o que lembraremos daqui a pouco, na renovação das promessas batismais, quando “renunciarmos ao pecado, para vivermos na liberdade dos filhos de Deus”. O pecado é o egoísmo que nos retém em nós; a liberdade dos filhos de Deus é a que Cristo partilha com quem realmente viva de Deus para os outros e com os outros em Deus.

Infelizmente, é certo que o mundo em que vivemos e em que muitos a custo sobrevivem apresenta-se demais como sepulcro fechado, como de facto assim é por tanta morte, destruição e escombro acumulado, por guerras e outros males que não faltam. Também em muitas vidas impedidas de nascer e noutras que desesperam de viver. Também em muitas solidões e abandonos, que contrariam a verdade inquestionável de que “viver é conviver”.
Nestas e noutras situações é de sepulcros fechados que se trata e com pesada pedra a bloqueá-los. Nesta Vigília, porém, clareada numa intensa luz pascal, o sepulcro vazio já proclama a vitória da vida sobre a morte, quando a própria morte se transformar em vida, pela inteira caridade que a preencha. Assim com Cristo – e por Cristo em nós e por nós onde chegarmos.
O Evangelho dizia-nos há pouco que, vendo o túmulo vazio e apenas as ligaduras que restavam, «Pedro voltou para casa admirado com o que tinha sucedido». Também nós, que sabemos já o que o apóstolo ainda não sabia em tal momento, não perdemos decerto a admiração por tudo o que a Páscoa nos oferece na inesgotável novidade da vitória de Cristo sobre a morte.
Por isso também voltaremos admirados para casa. E admiraremos muitos mais, quando a nossa própria vida for, em Cristo, geradora de vida para os outros, sobretudo onde houver maior urgência em que aconteça. - Não nos falta Cristo, não faltemos nós!


Sé de Lisboa, 16-17 de abril de 2022


+ Manuel, Cardeal-Patriarca

Patriarcado de Lisboa

SÁBADO SANTO. Linda reflexão para hoje, no silêncio do nosso coração, escutamos esta oração!

  

RCC Ponta Delgada

sexta-feira, 15 de abril de 2022

A oração do Papa na Via-Sacra: Senhor, desarmai a mão levantada do irmão contra o irmão

 
 Via-Sacra no Coliseu de Roma 
 
A Via-Sacra voltou a ser realizada no Coliseu de Roma, com a participação de milhares de fiéis. Um momento tocante foi representado por duas mulheres, uma ucraniana e outra russa, que juntas carregaram a Cruz na XIII Estação, que narra a morte de Cristo.
 

Bianca Fraccalvieri – Vatican News

A Paixão de Cristo encarnada na vida das famílias: o Coliseu de Roma concentrou hoje as alegrias e cruzes dos lares, durante a Via-Sacra desta Sexta-feira Santa, com a participação de dez mil pessoas.

Adentrando na cotidianidade de pais, avós e filhos, foram tocados temas da atualidade, como a educação, a pobreza, a migração, a pandemia, a doença e também a guerra. De facto, um dos momentos mais tocantes foi vivido durante a XIII Estação, que narra a morte de Jesus. Neste momento, a Cruz é carregada por duas famílias, uma ucraniana e outra russa, em especial por duas mulheres amigas que trabalham juntas em Roma. A câmara flagra o olhar de cumplicidade entre elas, enquanto o Pontífice cobre com a mão o seu rosto em profunda oração. 

O texto da meditação foi modificado no decorrer da celebração, para dar mais espaço à oração e ao silêncio, como explicou a Sala de Imprensa da Santa Sé: "Diante da morte, o silêncio é mais eloquente do que as palavras. Detemo-nos, portanto, num silêncio orante e cada um, no coração, reze pela paz no mundo."

No final das 14 estações, o Papa Francisco recitou a seguinte oração:

Pai misericordioso,

que fazeis nascer o sol sobre bons e maus,

não abandoneis a obra das vossas mãos,

pela qual não hesitastes

em entregar o vosso único Filho,

nascido da Virgem,

crucificado sob Pôncio Pilatos,

morto e sepultado no coração da terra,

ressuscitado entre os mortos ao terceiro dia,

aparecido a Maria de Magdala,

a Pedro, aos outros apóstolos e discípulos,

sempre vivo na santa Igreja,

o seu Corpo vivo no mundo.

 

Mantende acesa nas nossas famílias

a lâmpada do Evangelho,

que ilumina alegrias e sofrimentos,

fadigas e esperanças:

cada casa espelhe o rosto da Igreja,

cuja lei suprema é o amor.

Pela efusão do vosso Espírito,

ajudai a despojar-nos do homem velho,

corrompido pelas paixões enganadoras,

e revesti-nos do homem novo,

criado segundo a justiça e a santidade.

 

Segurai-nos pela mão, como um Pai,

para que não nos afastemos de Vós;

convertei ao vosso coração os nossos corações rebeldes,

para que aprendamos a seguir desígnios de paz;

fazei que os adversários se deem as mãos,

para que saboreiem o perdão recíproco;

desarmai a mão levantada do irmão contra o irmão,

para que, onde há ódio, floresça a concórdia.

 

Fazei que não nos comportemos como inimigos da cruz de Cristo,

para participar na glória da sua ressurreição.

Ele que vive e reina convosco,

na unidade do Espírito Santo,

para sempre.

Amém

Vatican News

Homilia na Celebração da Paixão do Senhor

 

 

A resposta de Deus na cruz de Cristo

A sair lentamente duma pandemia imprevista, lembrando os que ela vitimou e confrontados com uma devastadora guerra na Europa, a juntar-se às que persistem noutras latitudes, é caso para perguntar porque estamos hoje aqui e a recordar algo acontecido já tão longe no tempo e no espaço, como foi a paixão e morte de Jesus de Nazaré…
A resposta imediata é uma só: Estamos aqui porque o reconhecemos como Cristo, ou seja, o Messias tão esperado pelo povo bíblico e ainda hoje por quem o não conheça. Messias ou Cristo significa ungido pelo Espírito Divino para nos libertar de todos os cativeiros do corpo e da alma. Assim o sentimos e confessamos nós. É o que significa estarmos aqui e a revelação do seu porquê.
Reconhecemo-lo, nós e para os outros, por graça de Deus. Não como chefe vitorioso à maneira das efémeras vitórias deste mundo, mas com o rosto do servo de Javé, como ouvimos há pouco: «Ele foi trespassado por causa das nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Caiu sobre ele o castigo que nos salva: pelas suas chagas fomos curados». Salvou-nos dando a vida por todos e não a tirando a ninguém.
O seu percurso terreno foi como sabemos e a sua paixão foi como acabámos de ouvir. Nada que aparentemente o singularizasse, desde o pequeno perímetro de Nazaré da Galileia, entre a oficina do trabalho que fazia e a sinagoga do culto que prestava, não faltando a um nem a outro. Alguma notícia depois, da estada em Cafarnaum à passagem por outras terras. Falava-se de curas e conversões por ele realizadas, que indiciavam ser o Messias há muito esperado, embora ele pedisse discrição a esse respeito.
Na sua última subida a Jerusalém, começaram por aclamá-lo com “Hossanas ao Filho de David”, mas daí a dias foi preso, torturado e morto, pelo triste conluio de alguns religiosos e políticos e entre os gritos da turbamulta. Crucificaram-no por fim e assim morreu pouco depois, suplicando o perdão divino para os seus algozes. Mas, ainda aí, parecia mais um condenado entre outros que o ladeavam…
Perguntemo-nos então e de novo sobre o porquê de estarmos aqui, tantos séculos passados. Ou melhor, como se tanto tempo passado não conseguisse tirar-nos de ao pé da cruz.
Esta mesma pergunta é já resposta, pois significa admiração – palavra próxima de milagre – e uma admiração única pela atração que sentimos em redor dum crucificado, algo que por si mesmo não nos atrairia jamais, muito pelo contrário.

Cumpre-se assim, hoje e aqui, o que Ele próprio predissera: «Eu, quando for erguido da terra – precisamente na cruz – atrairei todos a mim» (Jo 12, 32). Deixemos que esta atração se imponha agora e ainda mais ao nosso espírito. Coincidamos com o que sentiram os poucos que permaneciam junto daquela cruz levantada, os primeiros a entrever que toda a tragédia humana se concentrava ali e assim mesmo encontrava salvação, porque partilhada pelo próprio Deus.
Tragédia partilhada pelo próprio Deus… Assim continua a ser, como a única esperança que apesar de tudo se entreabre. Como nestas palavras de há poucos dias, proferidas por um sacerdote ucraniano numa igreja de Bucha, entre ruínas e cadáveres: «Só Deus nos deu força para aguentar este inferno. Só Deus me dá força para contar o que aqui vi. […] Aqui, nestas três valas, foram deixados homens, mulheres e crianças, muitas crianças, algumas de colo. Estão aqui centenas de pessoas. Como é possível tanto mal? Como é possível tanta maldade? Meu Deus, meu Deus, ajuda-nos, dá-nos força» (Público, 5 de abril, p. 2).
Estavam junto à cruz de Jesus sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Duas ou três pessoas de família e uma das discípulas que o tinham seguido. Também um discípulo especialmente referido, que confiou a sua Mãe, pedindo-lhe que a guardasse depois. Eram poucos, mas estavam por muitos mais até hoje, como somos nós, também discípulos, também confiados à sua Mãe e guardando-a na devoção agradecida. Nascia ali a Igreja e assim se há de manter, em redor da cruz e vivendo daquela vida oferecida, como Deus Pai a devolveu. Só por isso estamos aqui, numa razão bastante e maior do que nós, pois só a partir dela nos compreendemos agora, para a testemunhar em toda a parte.
Importa perceber que a missão da Igreja se alarga com os braços da cruz. Braços que chegam até nós, e por nós hão de chegar aos outros. Não como mero emblema de naus de antanho ou de condecorações de agora. Mas como vidas salvas na que Cristo ali nos deu, entregando-nos consigo a Deus Pai e devolvidas pelo Pai a quem nos espera.
O Espírito com que tudo isto acontece manifesta-se hoje em cada vida entregue ao bem dos outros. E pode acontecer assim porque na cruz do Gólgota a humanidade atingiu em Cristo o ponto a partir do qual tudo verdadeiramente se renova.


Traduzindo a antiga frase e assinalando a convicção duradoura, “a cruz permanece enquanto o mundo se revolve”. Ali, onde «inclinando a cabeça, expirou». Expirou, repartindo connosco o mesmo Alento que o movia, para reanimarmos agora tanto desalento que não falta. Aí mesmo, onde a cruz do mundo se apresenta em fomes, pestes e guerras persistentes, Cristo está presente, tomando para si o que nos dói e contando connosco para se aproximar de todos, em cada momento e situação. Por isso estavam os primeiros ao pé da sua cruz e continuamos nós onde ela se apresenta hoje em toda a dor do mundo.
Sim, entre familiares e amigos que sofram no corpo ou no espírito, como em quem não conhecemos e igualmente sofra. Sim, em quem procure casa, sustento, saúde e educação para si e para os seus. Sim, em quem precise de apoio para prosseguir a gravidez e salvaguardar a vida que transporta em si, ou em quem requer companhia e cuidados para não desistir de viver. Sim, em quem tenha de fugir da sua terra, da Ucrânia a tantas outras paragens assoladas pela guerra e a devastação. Sim, em solidariedade plena com quantos sofrem perseguição pelo facto de serem cristãos ou quererem aderir a Cristo: Em todas estes casos, na sofrida concretização de cada um, alargam-se os braços da mesma cruz e encontra-se o mesmo Cristo, que nela nos espera em tantos rostos. E assim mesmo nos salva, quando a correspondência é perfeita.
Por isso estamos aqui, na única razão do atuar divino, como Jesus a revelou um dia: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que crê nele não se perca, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16).
Acolhamos a resposta de Deus na cruz de Jesus Cristo e convertamo-nos de vez ao amor que nos salva.


Sé de Lisboa, 15 de abril de 2022

+ Manuel, Cardeal-Patriarca

 

Patriarcado de Lisboa

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Homilia na Missa Vespertina da Ceia do Senhor

 

 

Homilia na Missa Vespertina da Ceia do Senhor

 
Até ao fim 

Caríssimos 

Se ainda procurássemos o verdadeiro porquê desta celebração, creio que não encontraríamos resposta mais cabal do que a ouvida no começo do Evangelho de há pouco: «Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim».
Reparemos que não se trata apenas de amar, mas de amar até ao fim. Dito de outro modo, amar verdadeiramente requer entrega total ao bem dos outros, fazendo da vida uma plena oferta. A vida de Jesus mostra-nos o que tal significa, a sua cruz realizou-o inteiramente e a Eucaristia oferece-o a cada um de nós.
São Paulo assimilou tão plenamente esta verdade que a repetiu uma e outra vez nos seus escritos. Como neste trecho, não hesitando em referir-nos à própria realidade divina, assim mesmo demonstrada: «Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos bem-amados, e procedei com amor, como também Cristo nos amou e se entregou a Deus por nós como oferta e sacrifício de agradável odor» (Ef 5, 1-2). Sim, como dirá o Prefácio desta Missa, «Cristo, nosso Senhor, verdadeiro e eterno sacerdote, oferecendo-se como vítima de salvação, instituiu o sacrifício da nova aliança e mandou que o celebrássemos em seu nome».
Jesus passou deste mundo para o Pai, na circunstância precisa que o Sagrado Tríduo relembra e medita, da traição do discípulo à morte na cruz. Mas de tudo isso, que podia ser apenas uma grande derrota e um tristíssimo desfecho, Jesus fez oferta de si mesmo por nós e por todos, inteiramente entregue às mãos de Deus Pai. Mãos que no-lo devolveram como alimento de vida eterna, essa mesma que preenche e salva a quem verdadeiramente a receba.

A simpatia humana é algo de natural e espontâneo, na nossa humanidade comum. Manifesta-se nas vidas que geram vidas, nos cuidados que se prestam e na atenção ao bem do próximo. Mas também sentimos que não chega, quando falta quem estava, o horizonte se ensombra, ou o mal parece vencer.
Significa isto que os melhores sentimentos e vivências não conseguem atingir quanto prometem e o nosso desejo mais profundo acaba por ficar sem cumprimento, não atingindo o fim que pretendia. As circunstâncias atuais, que afligem tanta gente por esse mundo além e aquém, dão lugar a grandes deceções. Na verdade, com tanto bem que se pratica, tanto contributo da ciência e do engenho humano, tanto sonho e ideal que nos movem, porque havemos de ficar a meio caminho de nós próprios, ou mesmo entre os escombros dos melhores propósitos?
- Que nos resta então, a nós mortais? Os discípulos de Jesus celebram hoje um amor que nos amou até ao fim e que desse modo preencheu de vida divina o que a fraqueza humana extinguiria. E não por fora desta mesma fraqueza, antes sofrendo-a até à morte e morte de cruz. Em tudo foi igual a nós, no que sofreu, mas sempre com Deus Pai e assim vencendo.
Porque nos amou até ao fim do percurso terreno que lhe truncaram de modo tão injusto e tão cruel, nada ficou por acompanhar em cada um, no infindo caminho em si aberto. Por isso celebramos e comungamos a vida que nos deu, na Santíssima Ceia do seu corpo oferecido e do seu sangue derramado.
Sim, caríssimos, se estamos hoje aqui, celebrando a Missa Vespertina da Ceia do Senhor, é unicamente porque Jesus nos amou até ao fim. Se o não tivesse atingido, também não nos alcançaria a nós, humanidade de qualquer tempo e lugar, sempre tão longe do que só com Ele poderá ser. Sabia-o São Paulo, ao resumir a sua vida deste modo: «corro para ver se o alcanço, já que fui alcançado por Cristo Jesus» (Fl 3, 12). Esta frase pode bem traduzir o dinamismo eucarístico duma existência cristã propriamente dita, da gratidão à entrega de si mesmo.

Duas consequências maiores daqui se tiram. A primeira é que celebrar verdadeiramente a Eucaristia é acertar a vida no ponto eucarístico a que Cristo chegou e donde nos chama agora e a cada um. É entrar na lógica divina que assim se revelou. Em Jesus Cristo, seu Verbo encarnado, Deus diz-se e comprova-se como vida totalmente oferecida.
Foi este o fim da revelação divina, para a tomarmos nós como finalidade da nossa vida em Deus. Na sua cruz Cristo entregou-se às mãos do Pai, na Eucaristia devolvemo-nos com Ele a Quem nos espera a nós também. Não celebramos muitas Missas, celebramos cada vez melhor a única de Cristo, sacramentalmente reiterada, para que o mesmo propósito se realize até ao fim.
A outra consequência necessária é a que Pedro aprendeu no lava-pés, como há pouco ouvimos, dando-lhe o sentido que aprenderia depois: «Senhor, então não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça». Não se tratava de limpeza exterior e fácil de conseguir. Trata-se da renovação inteira que só em Cristo se alcança. Em Cristo e precisamente no seu amor comprovado “até ao fim”, refazendo-nos com a sua vida entregue, convertendo toda a boa vontade humana na absoluta caridade divina.
Nenhum de nós se abeire da Eucaristia para continuar como está ou se garantir como deseja de si e só para si. Tudo isso seria muito pouco e mesmo ingratidão. A Eucaristia é a entrega total de Cristo pela totalidade que havemos de atingir com Ele, para glória de Deus e bem dos outros. Tudo nela é sacramento e sinal da ressurreição que só desse modo nos chega, pois com Cristo nos oferecemos a Deus e com Cristo nos devolvemos a todos, ampliando a Missa em missão.
A Eucaristia é a memória viva e vivificante da oferta que Jesus nos fez de si mesmo e nunca pode ser menos do que isso, para ser autêntica e salutar. Lembrou-o também São Paulo: «Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha».
Vivemos duma vida entregue, comunguemo-la inteiramente gratos e manifestemo-la em correspondência total. Não fiquemos a meio do caminho que Ele quer percorrer, connosco e em nós, até ao fim!


Sé de Lisboa, 14 de abril de 2022

+ Manuel, Cardeal-Patriarca