quarta-feira, 7 de dezembro de 2022
Audiência: nas decisões, é preciso confiar em Deus. Só Ele sabe o que é bom para nós
Bianca Fraccalvieri – Vatican News
Na iminência do inverno, a Audiência Geral foi transferida da Praça de ão Pedro para a Sala Paulo VI para melhor acolher os fiéis e peregrinos.
A eles, o Papa propôs o tema do tempo, desenvolvido sempre no âmbito do ciclo de catequeses sobre o discernimento.
Com efeito, o tempo é um critério fundamental para reconhecer a voz de Deus no meio de tantas outras vozes. Somente Ele é o senhor do tempo: é o selo de garantia da sua originalidade, que o diferencia das imitações que falam em seu nome, sem sucesso.
Na prática, uma vez tomada uma decisão, é importante, na fase sucessiva, estar atentos aos sinais para ver se confirmam ou desmentem tal decisão. Um dos sinais é a paz que perdura no tempo. Tomei a decisão correta se esta me traz harmonia, unidade, fervor e zelo.
A decisão também está correta se sinto gratidão, se sinto ocupar o meu lugar na vida e, sobretudo, se me sinto livre em relação à decisão tomada. Isto é, se me sinto livre para mudá-la ou até mesmo renunciar a ela caso não corresponda à vontade do Senhor.
Ele procede assim não para nos privar de algo querido, mas para vivermos com liberdade e sem apego. Somente Deus sabe o que é realmente bom para nós. A possessividade é inimiga do bem e aniquila o afeto: os muitos casos de violência doméstica nascem quase sempre da pretensão de possuir o afeto do outro. Mas o amor pressupõe liberdade. Por isso o Senhor criou-nos livres, livres inclusive de dizer não a Ele.
Confiar em Deus. Sempre!
Mas é do nosso interesse oferecer a Ele aquilo que temos de mais precioso, sabendo que a nossa vida e toda a história estão nas suas mãos benévolas.
É aquilo a que Bíblia chama o temor de Deus, isto é, respeito de Deus, condição indispensável para acolher o dom da Sabedoria. É o temor divino que afugenta todos os outros temores, todos os outros medos, porque está orientado para Aquele que é o Senhor de todas as coisas; na presença Dele, nada nos pode inquietar nem turvar.
O homem livre, disse o Papa, abençoa o Senhor tanto nas coisas boas, como nas coisas não tão boas.
Reconhecer isto é fundamental para uma boa decisão e tranquiliza-nos sobre aquilo cujo controlo ou previsão não está nas nossas mãos: a saúde, o futuro, os entes queridos, os nossos projetos. Aquilo que conta é ter a nossa confiança posta no Senhor do universo, que nos ama imensamente e sabe que podemos construir, com Ele, algo de maravilhoso, de eterno.
“Prossigamos sempre procurando tomar decisões assim, em oração, e sentindo o que acontece no nosso coração e ir avante lentamente. Coragem!”
Vatican News
domingo, 4 de dezembro de 2022
Papa: a humildade, caminho para encontrar Deus e os irmãos
Jackson Erpen - Cidade do Vaticano
Advento é um tempo de graça, de tirar as nossas máscaras, de ouvir o grito de João para voltar a Deus e começar uma nova vida. E para tal, devemos seguir o caminho da humildade.
Em síntese, foi o que disse o Papa Francisco antes de rezar o Angelus neste II Domingo do Advento, com os milhares de fiéis e turistas provenientes de várias partes do mundo reunidos na Praça de São Pedro, agora adornada com os dois símbolos do Natal por excelência: o Presépio e a árvore, doados respectivamente pela cidade de Sutrio, na província de Udine e pelo povoado de Rosello, de 182 habitantes, nas montanhas do Abruzzo.
João Batista, homem "alérgico à duplicidade"
A reflexão do Santo Padre foi inspirada na figura de João Batista, um "homem alérgico à duplicidade". De facto, segundo narra o Evangelho de Mateus (Mt 3, 1-12), ele "usava uma roupa feita de pelos de camelo" e "comia gafanhotos e mel do campo", convidando todos à conversão: "Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo!"
Por outras palavras, "um homem austero e radical, que à primeira vista pode até parecer-nos duro e incutir um pouco de medo", o que poderia levar-nos a perguntar o porquê "a Igreja o propõe todos os anos como principal companheiro de viagem no tempo do Advento".
Mas, questiona Francisco, "o que se esconde por trás da sua severidade, por trás da sua aparente dureza? Qual é o segredo de João? Qual a mensagem que a Igreja nos dá hoje com João?":
“Na realidade, o Batista, mais do que um homem duro, é um homem alérgico à duplicidade. Ouçam bem isto: alérgico à duplicidade. Por exemplo, quando fariseus e saduceus, conhecidos por sua hipocrisia, se aproximam dele, sua "reação alérgica" é muito forte!”
A hipocrisia pode arruinar as realidades mais sagradas
Alguns deles, de facto, explicou o Papa, provavelmente o procuravam por curiosidade ou por oportunismo, pois tinham-se tornado muito popular, tinham uma visão muito positiva de si mesmos, "e diante do apelo contundente do Batista, justificaram-se dizendo: "Abraão é nosso pai".
Assim, entre duplicidade e presunção, não acolhiam a ocasião de graça, a oportunidade de começar uma nova vida, "eram fechados na presunção de serem justos". Por isso João lhes
É um grito de amor, como o de um pai que vê o filho se filhose arruinar e lhe diz: "Não jogue fora a tua vida!". Com
efeito, queridos irmãos e irmãs, a hipocrisia é o perigo mais grave,
porque pode arruinar até as realidades mais sagradas. A hipocrisia é um
perigo grave. Por isso o Batista - como depois também Jesus - é duro com
os hipócritas. Podemos ler por exemplo o capítulo 23 de Mateus, onde
Jesus fala aos hipócritas do tempo, tão forte. E por que faz assim o
Batista e também Jesus? Para sacudi-los. Em vez disso, aqueles que se
sentiam pecadores "vinham ao encontro dele e, confessando os seus
pecados, eram batizados".
“É assim: para acolher Deus não importa a bravura, mas a humildade, este é o caminho para acolher Deus, não a bravura: "somos fortes, somos um povo grande". Não, a humildade!: "Sou pecador". Mas não de forma abstrata, não: "por isto, isto e aquilo", cada um de nós deve confessar a si mesmo, primeiro os próprios pecados, as próprias faltas, as próprias hipocrisias. É preciso descer do pedestal e mergulhar na água do arrependimento”
Humildade, caminho para vida nova
Francisco observa então, que as "reações alérgicas" de João Batista nos interpelam:
Não somos também nós às vezes um pouco como aqueles fariseus? Talvez olhemos os outros de alto a baixo, pensando sermos melhores do que eles, de ter o controle da nossa vida, de não ter em cada dia a necessidade de Deus, da Igreja, dos nossos irmãos (...). O Advento é um tempo de graça para tirar as nossas máscaras - cada um de nós as tem - e colocar-nos na fila com os humildes; para libertar-nos da presunção de nos acharmos autossuficientes, para ir confessar os ssos pecados, aqueles escondidos, e aceitar o perdão de Deus, para pedir desculpas a quem ofendemos. Assim começa uma nova vida.
E o caminho para isso é um só - frisou o Papa - o da humildade:
Purificar-nos do senso de superioridade, do formalismo e da hipocrisia, para ver nos outros irmãos e irmãs, pecadores como nós, e em Jesus ver o Salvador que vem para nós, não para os outros, para nós, assim como somos, com as nossas pobrezas, misérias e defeitos, sobretudo com a nossa necessidade de sermos elevados, perdoados e salvos.
Com Jesus, existe sempre a possibilidade de recomeçar
E por fim, o convite a nunca esquecermos de que, "com Jesus, existe sempre a possibilidade de recomeçar. Sempre!":
Nunca é tarde, existe sempre a possibilidade de recomeçar, tenham coragem, Ele está perto de nós e este é um tempo de conversão. Cada um pode pensar: “Tenho esta situação dentro de mim, este problema que me envergonha”. Mas Jesus está ao teu lado, recomeça, existe sempre a possibilidade de dar mais um passo. Ele espera por nós e nunca se cansa de nós. Nunca se cansa de nós, nós somos chatos, mas nunca se cansa! Escutemos o apelo de João Batista para voltar para Deus e não deixemos este Advento passar como os dias do calendário, porque este é um tempo de graça, de graça também para nós, agora, aqui!
Que Maria - disse ao concluir - a humilde serva do Senhor, ajude-nos a encontrá-lo, a Jesus e aos irmãos no caminho da humildade que é o único que nos faz seguir em frente.
Vatican News
quinta-feira, 1 de dezembro de 2022
Francisco: o mundo precisa de voluntários comprometidos com o bem comum
Vatican News
O Papa Francisco recorda na intenção de oração para o mês de dezembro as organizações de voluntariado, atores-chave na sociedade devido ao seu compromisso na promoção humana e no bem comum.
"O mundo precisa de voluntários e de organizações que queiram comprometer-se com o bem comum. Sim, essa é a palavra que muitos hoje em dia querem apagar: 'compromisso'. E o mundo precisa de voluntários comprometidos com o bem comum", destaca o Pontífice na mensagem de vídeo, divulgada nesta quinta-feira (1°/12).
O Vídeo do Papa deste mês mostra os voluntários ao lado das vítimas de catástrofes naturais, dos pobres que sofrem as consequências da crise económica, de crianças desnutridas, refugiados em fuga por causa da guerra, jovens e mulheres à procura de trabalho.
Ser artesãos de misericórdia
Segundo o Papa, "ser um voluntário solidário é uma escolha que nos torna livres; torna-nos abertos às necessidades dos outros, às exigências da justiça, à defesa dos pobres, ao cuidado da criação".
É ser artesãos de misericórdia: com as mãos, com os olhos, com o ouvido atento, com a proximidade. E ser voluntário é trabalhar com as pessoas a quem se serve. Não só para o povo, mas também com o povo. Trabalhar com pessoas.
Precisamos de multiplicar a esperança
De acordo com Francisco, "o trabalho das organizações voluntárias é muito mais eficaz quando elas colaboram entre si e também com os Estados. Trabalhando em conjunto, apesar dos poucos recursos que possam ter, dão o seu melhor e fazem do milagre da multiplicação da esperança uma realidade. Precisamos tanto de multiplicar a esperança"!
Rezemos para que as organizações de voluntariado e de promoção humana encontrem pessoas dispostas a comprometerem-se com o bem comum e a procurarar novas formas de colaboração a nível internacional.
Este apelo do Santo Padre destaca o trabalho de milhões de organizações e associações voluntárias em todo o mundo, a maioria delas frequentemente sem visibilidade ou estatuto legal.
Voluntariado de inspiração cristã
De acordo com o programa Voluntários das Nações Unidas (UNV), uma em cada nove pessoas no mundo faz trabalho voluntário, num total de 862,4 milhões de voluntários nos cinco continentes.
Muitas organizações de voluntariado do mundo são de inspiração cristã e o seu trabalho procura dar testemunho do Evangelho nas situações mais difíceis. Do Líbano às Filipinas, do México à Ucrânia, da Venezuela a Uganda.
Vatican News
domingo, 27 de novembro de 2022
O Papa e o Advento: Deus esconde-se nas situações mais comuns da nossa vida
Mariangela Jaguraba - Vatican News
O Papa Francisco rezou a oração mariana do Angelus, deste domingo (27/11), com os fiéis e peregrinos reunidos na Praça de São Pedro.
Na alocução que precedeu a oração, o Pontífice recordou a "bela promessa que nos introduz no tempo do Advento: «Virá o teu Senhor».
Este é o fundamento da nossa esperança, é o que nos sustenta também nos momentos mais difíceis e dolorosos da nossa vida: Deus vem. Nunca nos esqueçamos disso! O Senhor vem sempre, visita-nos, faz-se próximo, e voltará no fim dos tempos para nos acolher no seu abraço.
O Senhor inspira as nossas ações
A seguir, o Papa fez as seguintes perguntas: "Como vem o Senhor? Como reconhecê-lo e acolhê-lo?" Primeira pergunta: como vem o Senhor?
Segundo Francisco, "muitas vezes ouvimos dizer que o Senhor está presente no nosso caminho, que nos acompanha e nos fala. Mas talvez, distraídos como estamos por tantas coisas, esta verdade permanece para nós apenas teórica, ou imaginamos que o Senhor vem de maneira sensacional, talvez por meio de algum sinal prodigioso. Jesus diz que acontecerá "como nos dias de Noé". E o que faziam nos dias de Noé? Simplesmente as coisas normais e quotidianas da vida: «Comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento»".
Levemos em consideração isso: Deus está escondido na nossa vida, está sempre presente, está escondido nas situações mais comuns e ordinárias da nossa vida. Não vem em eventos extraordinários, mas nas coisas do dia-a-dia. O Senhor vem nas coisas do dia-a-dia, porque Ele está ali, manifesta-se nas coisas de todos os dias. Ele está ali, no nosso trabalho quotidiano, num encontro casual, no rosto de uma pessoa necessitada, mesmo quando enfrentamos dias que parecem cinzentos e monótonos, o Senhor está ali, chama- fala-nos e inspira as nossas ações.
Perceber a presença de Deus na vida cotidiana
Segunda pergunta: como reconhecer e acolher o Senhor? De acordo com o Papa, "devemos estar acordados, atentos, vigilantes. Jesus adverte-nos: existe o perigo de não percebermos a sua vinda e estar despreparados para a sua visita".
Francisco disse que recordou "outras vezes o que Santo Agostinho dizia: "Temo o Senhor que passa", ou seja, temo que Ele passe e eu não o reconheça! De facto, sobre aquelas pessoas do tempo de Noé, Jesus diz que elas comiam e bebiam «e nada perceberam, até que veio o dilúvio, e arrastou todos»".
Prestemos atenção nisto: não perceberam nada! Estavam ocupadas com suas coisas e não perceberam que o dilúvio estava para vir. De facto, Jesus diz que, quando Ele vier, "dois homens estarão a trabalhar no campo: um será levado e o outro deixado". Qual é a diferença? Em que sentido? Simplesmente que um estava vigilante, esperava, capaz de perceber a presença de Deus na vida quotidiana; o outro, por outro lado, estava distraído, "sem compromisso", como se fosse nada, e não percebeu nada.
Deixar-se chacoalhar pelo torpor
"Neste Tempo do Advento deixemo-nos chacoalhar pelo nosso torpor e despertemo-nos do sono", disse o Papa, convidando-nos a fazer as seguintes perguntas: "Estou consciente do que vivo? Estou atento? Estou acordado? Procuro reconhecer a presença de Deus nas situações quotidianas ou estou distraído e um pouco esmagado pelas coisas?"
"Se não percebermos a sua vinda hoje, também estaremos despreparados quando ele vier no fim dos tempos. Irmãos e irmãs, permaneçamos vigilantes! Esperando que o Senhor venha, aproxime-se de nós, porque Ele está aqui, espera. Prestemos atenção! Que a Virgem Santa, Mulher da expetativa, que percebeu a passagem de Deus na vida humilde e escondida de Nazaré e o acolheu no seu ventre, nos ajude neste caminho de estar atentos à espera do Senhor que está no meio de nós e passa", concluiu Francisco.
Vatican News
domingo, 20 de novembro de 2022
Papa em Asti: Jesus, Rei que nos abraça, mesmo com as nossas misérias
Na homilia da missa na Catedral de Asti, pela Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, o Papa enfatizou que da cruz Jesus abraça todos, com pobrezas, fragilidades e misérias. Entretanto, pede-nos que o chamemos pelo nome e que sujemos as nossas mãos com ele, não como meros espetadores, mas "envolvidos", com coragem de olhar para nós mesmos e pelos sofrimentos do mundo, "fazendo-nos servos para reinar com Ele".
Andressa Collet - Vatican News
O abraço do Papa à comunidade de Asti, no norte da Itália, veio na manhã de domingo (20) na Catedral de Nossa Senhora da Assunção pela Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Após percorrer a cidade e saudar de perto as pessoas a bordo do papa-móvel, Francisco deu início ao seu segundo e último dia na região do Piemonte, terras em que o seu pai emigrou para a Argentina e onde veio "reencontrar o sabor das raízes", disse o Pontífice em homilia, ao fazer referência ao Evangelho de Lucas 23, 35-43 que "nos leva às raízes da fé" encontradas no "terreno árido do Calvário".
O nosso Rei de braços abertos
O Papa, então, convidou a fixar "o nosso olhar n’Ele, no Crucificado", despido na cruz, que ganhou a falsa imagem de realeza através de um letreiro na cruz. Mas, observando Jesus, alertou Francisco, "inverte-se a ideia que temos de um rei", "vemos que é completamente diferente. Não está sentado num trono confortável" e "comporta-Se como servo cravado na cruz pelos poderosos", "despojado de tudo, mas rico de amor":
“Do trono da cruz, já não ensina as multidões com a palavra, nem levanta a mão para ensinar; faz mais: não aponta o dedo contra ninguém, mas abre os braços a todos. Assim Se manifesta o nosso Rei: de braços abertos – a brasa aduerte.”
E só entrando no seu abraço, continuou Francisco, é que compreendemos que Deus Se deixou levar até o paradoxo da cruz para abraçar tudo em nós: a nossa morte, o nosso sofrimento, as nossas pobrezas, as nossas fragilidades.
"Eis o nosso Rei, Rei do universo, porque atravessou os confins mais remotos do humano, entrou nos buracos negros do ódio e do abandono para iluminar cada vida e abraçar toda a realidade. Irmãos, irmãs, tal é o Rei que hoje festejamos! Não é fácil de entender, mas é o nosso Rei."
Esse é o modelo a seguir e a celebrar, acrescentou o Papa, por isso o convite para, "com frequência", colocarmo-nos diante do Crucificado e dar a possibilidade de "nos deixarmos amar por Ele":
“Mas Senhor, é verdade? Com as minhas misérias, amas-me assim? Cada um neste momento pense na sua própria pobreza: 'Mas, amas-me com estas pobrezas espirituais que eu tenho, com estas limitações?' E Ele sorri e faz-nos perceber que nos ama e deu a Sua vida por mim. Pensemos um pouco sobre as nossas limitações, mesmo as coisas boas, e Ele ama-nos como nós somos, como somos agora.”
"E então compreendemos que não temos um deus desconhecido, lá em cima nos céus, poderoso e distante, não; um Deus próximo, a proximidade é o estilo de Deus: a proximidade, com ternura e misericórdia. Este é o estilo de Deus. Não tem outro estilo. Perto, misericordioso e terno. Terno e compassivo, cujos braços abertos consolam e acariciam. Eis o nosso Rei!"
O contágio letal da indiferença
Depois de termos contemplado Jesus na cruz, questionou o Papa, o que mais podemos fazer? Ser apenas um espetador - aquela grande maioria curiosa e indiferente que só observa e julga ao "assistir ao espetáculo cruento do fim inglorioso de Cristo"; ou quem se aventura e se envolve. O primeiro grupo, alertou o Pontífice, faz parte de uma "onda do mal", que "é contagiosa", feito uma "doença contagiosa" que acaba tornando-nos "cristãos de fachada, que dizem acreditar em Deus e querer a paz, mas não rezam nem cuidam do próximo".
É o contágio letal da indiferença. Uma doença feia é a indiferença, sabe? 'Isto não cabe a mim, não cabe a mim...' indiferença para com Jesus e indiferença também para com os doentes, para com os pobres, para com os miseráveis da terra. Eu gosto de perguntar às pessoas, e peço a cada um de vós; eu sei que cada um de vocês dá esmola aos pobres, e eu pergunto-vos: 'Quando dás esmola aos pobres, olhas nos olhos deles? És capaz de olhar nos olhos deles? Daquele pobre homem ou mulher que te pede esmola? Quando dás esmola aos pobres, jogas a moeda ao chão ou tocas na mão deles? És capaz de tocar uma miséria humana?' Cada pessoa então faz a resposta hoje. Aquelas pessoas eram indiferentes. Aquelas pessoas falam de Jesus, mas não se sintonizam com Jesus. E esse é o contágio letal da indiferença: que cria distância com a miséria.
A onda do bem dos envolvidos
Entretanto, entre muitos espetadores no território do Calvário, continuou o Papa, há quem se aventura e se envolve. E o Evangelho fala "do bom ladrão para nos convidar a vencer o mal, deixando de ser espetadores. E de onde havemos de começar? Da confidência, de chamar a Deus pelo nome", indicou Francisco, sem maquilhagens:
"Por favor, não façam a espiritualidade de maquilhagem: ela é entediante. Diante de Deus: sabão e água, somente. Sem maquilhagem, a alma como ela é. E dali vem a salvação."
“Irmãos, irmãs, hoje o nosso Rei olha-nos da cruz a brasa aduerte. Cabe a nós escolher, sermos espetadores ou envolvidos. Vemos as crises de hoje, o declínio da fé, a falta de participação... E o que fazemos? Limitamo-nos a fazer teorias, a criticar, ou arregaçamos as mangas, comprometemo-nos na vida, passamos do «se» das desculpas ao «sim» da oração e do serviço? Todos pensamos saber o que está errado na sociedade, no mundo, até na Igreja, mas depois… fazemos alguma coisa? Metemos as mãos na massa, como o nosso Deus pregado no madeiro, ou ficamos a olhar com as mãos nos bolsos?”
Vatican News
sexta-feira, 18 de novembro de 2022
O Papa: não ter medo da desolação, mas nela encontrar o coração de Cristo
Mariangela Jaguraba - Vatican News
O Papa Francisco retomou as catequeses sobre o discernimento na Audiência Geral, desta quarta-feira (16/11), realizada na Praça São Pedro. "Por que estamos desolados" foi o tema deste encontro semanal do Pontífice com os fiéis.
O Santo Padre recordou a importância de "ler o que se move dentro de nós, para não tomar decisões apressadas, na onda da emoção do momento, para depois se arrepender, quando já é demasiado tarde. Neste sentido, o estado espiritual a que chamamos desolação, quando no coração tudo está escuro, triste, pode ser ocasião de crescimento".
Segundo o Papa, "a desolação provoca uma “trepidação da alma”, mantém-nos alertas, favorece a vigilância e a humildade, protegendo-nos contra os ventos do capricho. São condições indispensáveis para o progresso na vida e, portanto, inclusive na vida espiritual".
Inquietação, ímpeto para dar uma reviravolta na própria vida
"Uma serenidade perfeita, mas “asséptica”, sem sentimento, quando se torna o critério de escolhas e comportamentos, torna-nos desumanos", disse Francisco, acrescentando:
Não podemos deixar de prestar atenção aos sentimentos, somos humanos e o sentimento é uma parte da nossa humanidade, e sem entender os sentimentos seremos desumanos, sem viver os sentimentos, seremos indiferentes ao sofrimento dos outros e incapazes de aceitar o nosso. Sem considerar que esta “serenidade perfeita” não se alcança por este caminho da indiferença.
“Distância asséptica: eu não me misturo nas coisas, tomo distância. Isso não é vida, isso é como se vivêssemos num laboratório, fechados para não apanhar um micróbio, uma doença. Para muitos santos e santas, a inquietação foi um ímpeto decisivo para dar uma reviravolta na própria vida. Esta serenidade artificial não é boa, mas sim uma inquietação saudável. Um coração inquieto, que busca o caminho.”
Como "é o caso, por exemplo, de Agostinho de Hipona, Edith Stein, José Benedito Cottolengo e Charles de Foucauld", frisou o Papa, afirmando que "as escolhas importantes têm um preço que a vida apresenta, um preço acessível a todos. As escolhas importantes não vêm da lotaria, elas têm um preço e tens de pagar aquele preço. É um preço que pagas com o coração, um preço da decisão, um preço a ser levado adiante, com um pouco de esforço, mas não é grátis. É um preço que está ao alcance de todos. Todos temos que pagar esta decisão para sair do estado de indiferença que nos põe para baixo".
A desolação é também um convite à gratuidade
A desolação é também um convite à gratuidade, a não agir sempre e unicamente em vista de uma gratificação emocional. Estar desolados oferece-nos a possibilidade de crescer, de começar uma relação mais madura, mais bela, com o Senhor e com os entes queridos, uma relação que não se reduza a uma mera troca de dar e receber. Pensemos na nossa infância. Quando se é criança, procura-se com frequência os pais para obter algo deles, um brinquedo, dinheiro para comprar um sorvete, uma autorização. E assim os procuramos não por eles mesmos, mas por um interesse. No entanto, o maior dom são eles, os pais, e compreendemos isso na medida em que crescemos.
Segundo o Papa, "até muitas das nossas orações são um pouco desse tipo, são pedidos de favores dirigidos ao Senhor, sem um verdadeiro interesse por Ele. O Evangelho observa que Jesus vivia frequentemente circundado por muitas pessoas que o procuravam para obter algo, curas, ajudas materiais, mas não simplesmente para estar com Ele. Era pressionado pelas multidões e, contudo, estava sozinho. Alguns santos, e até certos artistas, meditaram sobre esta condição de Jesus. Poderia parecer estranho, irreal, perguntar ao Senhor: “Como estás?” No entanto, é um modo muito bonito de entrar numa relação verdadeira, sincera, com a sua humanidade, com o seu sofrimento, até com a sua singular solidão. Com Ele, que quis partilhar até ao fundo a sua vida connosco".
Levar adiante a desolação com perseverança
Segundo o Papa, faz-nos bem "aprender a estar com Ele, estar com o Senhor, aprender a estar com Senhor sem outro objetivo, exatamente como nos acontece com as pessoas de quem gostamos: desejamos conhecê-las cada vez mais, porque é bom estar com elas".
Francisco disse que "a vida espiritual não é uma técnica à nossa disposição, não é um programa de “bem-estar” interior que nos compete planificar. Não! A vida espiritual é a relação com o Vivente, com Deus, o Vivente, irredutível às nossas categorias". "Quem reza observa que os resultados são imprevisíveis", frisou o Pontífice, convidando "a não ter medo da desolação, mas levá-la adiante com perseverança, não fugir, e na desolação procurar encontrar o coração de Cristo, encontrar o Senhor, e a resposta chega sempre".
"Portanto, diante das dificuldades nunca devemos desanimar, mas enfrentar a provação com decisão, com a ajuda da graça de Deus que nunca nos falta. E se ouvirmos dentro de nós uma voz insistente, que nos quer distrair da oração, aprendamos a desmascará-la como a voz do tentador; e não nos deixemos impressionar: façamos simplesmente o contrário do que ela nos diz", concluiu o Papa.
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